Enquanto o Pix não cruza fronteiras, as stablecoins já cruzaram
- * Por Giuliano Kohler Silva, Head of Crypto / FX D
- 04/02/2026
- Sistema financeiro
Quando o Pix foi lançado em 2020, o Brasil rompeu paradigmas no sistema de pagamentos domésticos. Transferências instantâneas, sem custo para pessoas físicas, totalmente integradas ao sistema financeiro e rapidamente adotadas por milhões de brasileiros transformaram a forma como o dinheiro circula no país. No entanto, à medida que o debate sobre inovação financeira amadurece, torna-se cada vez mais evidente que, apesar de sua eficiência no mercado interno, o Pix ainda não cumpre uma função essencial na economia global: as fronteiras seguem sendo uma barreira.
Paralelamente, um ecossistema financeiro que opera fora das estruturas tradicionais vem ocupando justamente esse espaço. Liderado pelas stablecoins, essas soluções já permitem a transferência de valor entre países de forma ágil, contínua e em escala relevante, não mais de forma experimental, mas sustentadas por números que chamam a atenção de empresas, investidores e governos.
As stablecoins são criptomoedas projetadas para manter valor estável, geralmente atreladas a moedas fiduciárias como o dólar ou o euro. Diferentemente de criptoativos voláteis como o bitcoin, elas oferecem liquidez e previsibilidade, atributos essenciais para pagamentos internacionais. Esse desenho técnico faz com que funcionem, na prática, como um meio de pagamento digital global.
Dados de mercado indicam que, apenas no primeiro semestre de 2025, o volume de transações com stablecoins em pagamentos internacionais alcançou aproximadamente US$4,6 trilhões, quase igualando o total movimentado ao longo de todo o ano de 2024. Esse crescimento acelerado é impulsionado, sobretudo, pelo uso em remessas e pagamentos entre empresas, especialmente em mercados emergentes. Ainda que partam de uma base menor dentro do sistema global de pagamentos transfronteiriços, as stablecoins avançam em um ritmo que desafia infraestruturas estabelecidas há décadas.
O contraste com o Pix é inevitável. O sistema brasileiro é um caso de sucesso incontestável no âmbito doméstico, com milhões de transações diárias e alto nível de confiança, respaldado pelo Banco Central. Ainda assim, ele não opera de forma nativa em pagamentos internacionais. Enquanto isso, as stablecoins não reconhecem fronteiras: por operarem em redes blockchain, conectam pessoas e instituições globalmente de maneira interoperável e contínua.
Essa diferença se torna ainda mais evidente quando comparada aos sistemas tradicionais de pagamentos internacionais, como redes de bancos correspondentes, o SWIFT e os arranjos de cartões, conhecidos por seus custos elevados e prazos longos. São justamente essas fricções que as stablecoins prometem eliminar. Não por acaso, fintechs já desenvolvem soluções que conectam infraestruturas domésticas (como Pix, SEPA ou Wire) a stablecoins, viabilizando pagamentos internacionais mais rápidos e menos custosos.
No Brasil, essa dinâmica ganha contornos interessantes. De um lado, o Banco Central defende que o Pix resolveu inúmeras deficiências das stablecoins no uso doméstico e que estes ativos podem ser menos relevantes para pagamentos locais. De outro, dados da Receita Federal mostram que o volume de negociação de stablecoins nas exchanges brasileiras ultrapassou o do Bitcoin, chegando a responder por cerca de 90% das transações reportadas.
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Esse movimento revela duas tendências que coexistem. O Pix permanece dominante em pagamentos cotidianos no Brasil e as stablecoins já se consolidam como ferramenta de acesso ao dólar e liquidez global, algo que o Pix simplesmente não desempenha atualmente.
Não é sobre competidores, é sobre complementaridade
Mais do que uma disputa entre tecnologias, trata-se de complementaridade. O Pix revolucionou os pagamentos no Brasil. As stablecoins estão transformando os pagamentos entre países. Enxergar essa evolução como uma ameaça ao Pix é menos produtivo do que reconhecer que a integração entre sistemas nacionais eficientes e protocolos globais de transferências de valor representa o próximo passo natural.
Resistir à expansão das fronteiras financeiras é tão inútil quanto tentar impedir que um celular se conecte à internet global. A conectividade simplesmente seguirá sua evolução. O desafio, agora, está em compreender como tradições consolidadas e inovação podem caminhar juntas, garantindo que o Brasil mantenha protagonismo na próxima onda de transformação dos meios de pagamento.
* Por Giuliano Kohler Silva – Head of Crypto / FX Desk do Braza
