A inteligência artificial já faz parte da rotina de eleitores que recorrem a chatbots para resumir programas de governo, comparar propostas e pesquisar o histórico de candidatos. O risco não começa apenas quando a ferramenta indica um nome, mas também quando organiza as informações de forma capaz de favorecer uma candidatura sem explicar os critérios utilizados.
Um levantamento do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro, o ITS Rio, identificou que seis das sete plataformas de inteligência artificial analisadas apresentaram algum grau de ranqueamento ou priorização de candidatos. O estudo também apontou baixa presença de fontes oficiais e casos de imprecisão factual nas respostas.
Para João Paulo Batistella, especialista em transformação digital e inovação, uma ferramenta não precisa recomendar explicitamente um voto para influenciar a escolha. A ordem dos nomes, o espaço dedicado a cada proposta e a seleção dos pontos positivos e negativos já podem direcionar a interpretação do usuário. “Ao colocar um candidato no topo, repetir determinadas qualidades ou omitir informações importantes, o sistema interfere na forma como aquela candidatura é percebida”, afirma.
A Resolução nº 23.755/2026 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe que sistemas de inteligência artificial ranqueiem, recomendem, sugiram, priorizem ou favoreçam candidaturas e partidos, mesmo quando o próprio usuário pede uma indicação. A norma também impede que essas ferramentas expressem preferência eleitoral ou recomendem voto de forma direta ou indireta.
Isso não significa que a IA precise ser descartada durante o processo eleitoral. A tecnologia pode resumir planos de governo, separar propostas por áreas como economia, saúde e educação, localizar documentos públicos e tornar conteúdos extensos mais acessíveis. Em vez de perguntar “qual é o melhor candidato?”, o eleitor pode usar um comando como: “Compare as propostas oficiais dos candidatos para a economia, sem recomendar nenhum deles, e apresente as fontes utilizadas”.
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Mesmo com comandos mais objetivos, as respostas devem ser conferidas em documentos oficiais, entrevistas, declarações públicas e registros da Justiça Eleitoral. Para Batistella, a IA deve funcionar como uma etapa de organização da pesquisa, não como autoridade política. “A tecnologia pode reduzir o tempo necessário para reunir informações e ajudar o eleitor a formular perguntas melhores. A interpretação dos dados e a decisão do voto, porém, continuam sendo responsabilidades humanas”, conclui.
Créditos: @batistellabr | CO ASSESSORIA
