Interior do Amazonas, antes e depois do Governo Wilson Lima
Quem vive o interior de verdade — e não apenas em discurso — sabe que há uma linha nítida separando dois tempos: a época em que os municípios “se viravam como podiam”, convivendo com isolamento, precariedade e promessas muitas vezes interrompidas; e o momento em que o estado assumiu, de forma contínua, o dever de chegar junto, planejar, executar e entregar.
Em 2019, o Governo Wilson Lima escolheu percorrer o caminho que dá mais trabalho, custa caro e exige presença constante. Esse caminho, da política pública de integração, se pauta em fazer o essencial e bem-feito, com escala, método e cobertura territorial — seja estrada, asfalto, água, saneamento, habitação, luz ou logística.
Por muitos anos, grande parte dos municípios do interior viveu refém de fragilidades crônicas. Dentre elas, a mobilidade precária, com sistemas viários urbanos degradados, vicinais e ramais sem condições de tráfego e rodovias estratégicas com trechos críticos; serviços básicos insuficientes, especialmente água tratada, esgotamento sanitário e iluminação pública eficiente; desigualdade territorial, em que o acesso à moradia digna, regularização fundiária e infraestrutura urbana dependia mais do acaso do que do planejamento. O resultado se traduzia no encarecimento do custo de vida, insegurança, dificuldade para escoar produção, baixa atratividade econômica e sensação de abandono.
A virada começou com uma lógica simples, a de que não existe desenvolvimento regional sem infraestrutura de base. E isso se traduz em números e programas.
Um dos símbolos dessa retomada é a recuperação e modernização de eixos estratégicos, a exemplo da AM-070 e AM-010, incluídas no pacote de obras estruturantes.
As rodovias representam acesso a mercado, a serviço, saúde, escola, emprego. Quando o estado assume essa responsabilidade como prioridade, reduz o chamado “custo Amazonas”, que pesa no bolso das famílias e nos pequenos negócios, e encurta distâncias reais — inclusive as de oportunidades.
O governador Wilson Lima deu atenção especial aos sistemas viários nos municípios do interior. Com o Programa Asfalta Amazonas, que eu coordeno à frente da Unidade Gestora de Projetos Especiais (UGPE), 38 municípios já foram beneficiados. O resultado é a transformação urbana, com ruas trafegáveis, drenagem superficial, calçada, meio-fio, sarjeta e sinalização. É isso que muda a rotina do trabalhador, do estudante, do comerciante, e torna as cidades mais atrativas e resilientes.
O Asfalta Amazonas vem fazendo esse trabalho em escala, com execução direta e por meio de convênios com as prefeituras. Desde 2021, já foram firmados 41 convênios e 15 contratos, totalizando R$ 879,9 milhões em investimentos. A partir de 2024, nova fase do programa, mais R$ 650,9 milhões estão sendo investidos.
Estamos, atualmente, com obras em andamento em 20 municípios e com mais 13 programados para receber os serviços ainda este ano. Esse é o tipo de obra que parece simples, mas redefine a dignidade urbana. Menos lama no período de chuva, menos poeira no verão, mais circulação, mais segurança para todos.
As vicinais e ramais também foram recuperados e são exemplos de como o asfalto pode ser importante para a política agrícola. O setor primário não cresce com discurso. Cada quilômetro recuperado é uma ponte entre quem produz e quem consome. É o interior vendendo melhor, perdendo menos, gerando renda e contribuindo para a economia local.
Outro destaque no interior é o Ilumina+ Amazonas, programa que executamos pela UGPE e que já alcançou todos os 61 municípios, além de 245 comunidades rurais e indígenas, com a instalação de 119.054 mil pontos de LED. Com o programa, o Amazonas passou a ocupar a posição de primeiro estado brasileiro com iluminação 100% sustentável.
No interior, a mudança para LED significa economia de custos, sustentabilidade e sensação real de segurança. Além disso, o programa proporciona a redução da emissão de gás carbônico na atmosfera, uma contribuição do estado no combate à crise climática.
Não se trata, portanto, do simples ato de “trocar lâmpadas”. É permitir, com isso, que o comércio funcione mais tempo, que a família circule com mais tranquilidade nos espaços públicos, que a cidade se sinta cuidada, e que o Estado entregue, de forma concreta, uma agenda de sustentabilidade.
Nessa mesma linha de cuidado, destaco o saneamento básico, serviço sob responsabilidade das prefeituras, mas que ganhou forte apoio do Governo do Estado, na atual administração, atuando em duas frentes. Com o Programa de Saneamento Integrado (Prosai), executado pela UGPE, concluímos as ações em Maués, com o município dando um verdadeiro salto nessa área, ao ter 100% da população atendida com água tratada e 50% com rede de esgoto
Em Parintins, o programa iniciou em setembro de 2024 e já contabiliza um grande resultado, que é a resolução definitiva do problema dos poços contaminados que abasteciam a cidade. Desde junho do ano passado, a cidade já conta com água de qualidade nas torneiras e o programa segue avançando na implantação de rede de esgoto. O Prosai representa um investimento de US$ 87,5 milhões, o maior aporte de recursos já realizado no interior do estado.
Na outra ponta, com a Microrregião de Saneamento Básico do Amazonas (MRSB/AM) o Governo do Estado deu um passo importante para ajudar os municípios no alcance da universalização dos serviços. A MRSB/AM é uma iniciativa que tem à frente a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano (Sedurb) na organização e mobilização.
É uma autarquia intergovernamental, que tem como atribuições o planejamento, a regulação, a fiscalização e a execução, direta ou contratada dos serviços públicos de saneamento básico, de forma compartilhada entre estado e municípios. Criada pela Lei Complementar nº 272/2025, sancionada pelo governador Wilson Lima em janeiro do ano passado, a MRSB é um marco histórico para o Amazonas.
Além dessa iniciativa, não posso deixar de citar o trabalho gigantesco feito pela Companhia de Saneamento do Amazonas (Cosama), órgão vinculado à Sedurb. Garantir água tratada é uma das frentes mais sensíveis do interior e a Cosama, que administra o sistema em 15 municípios, tem uma atuação forte nesse aspecto.
Com o Programa Água Boa, da Cosama, foram instalados, desde 2019, cerca de 700 purificadores em 54 municípios, junto com a Defesa Civil. Além disso, mais 50 sistemas completos, beneficiando até mil famílias, por comunidade. O sistema capta água de rios e poços, tratando-a para o consumo humano, garantindo, assim, um produto de qualidade.
Por muito tempo ouvi dizer que saneamento não dava voto, por isso os governantes não tinham interesse em resolver o problema. Pois bem, saibam que saneamento é uma revolução silenciosa. É uma obra que a cidade sente no corpo: menos doença, mais saúde pública, mais valorização urbana, mais turismo, mais autoestima.
Como secretário da Sedurb e da UGPE e como especialista nessa área por formação, faço questão de dizer que saneamento não é só engenharia, não é uma obra isolada. É a garantia de um direito de todos. É uma questão de dignidade e, por isso mesmo, tenho muito orgulho de poder executar um trabalho tão importante para o cidadão que realmente precisa desse serviço.
E esse trabalho se soma às demais agendas de ampliação e melhoria operacional promovidas pelo estado no interior. Cito os portos e terminais flutuantes, de uma importância enorme em um estado entrecortado por rios. O estado já entregou 35 terminais flutuantes desde 2021, com investimentos superiores a R$ 40,1 milhões. Esse tipo de obra encurta distâncias para transporte, turismo, abastecimento e acesso a serviços essenciais.
Na área da habitação, os resultados também são acelerados, com o Programa Amazonas Meu Lar, coordenado pelo Sedurb e desenvolvido pela UGPE, Superintendência Estadual de Habitação (Suhab) e Secretaria das Cidades e Territórios (Sect). O Amazonas Meu Lar já se configura como o maior programa habitacional do estado, ampliando o acesso efetivo à moradia e à regularização fundiária.
Com o Amazonas Meu Lar encampamos o desafio de enfrentar o déficit habitacional. O programa já beneficiou 29.451 famílias, sendo 20.831 com regularização fundiária e 8.620 com soluções de moradia. O total de investimentos já ultrapassa R$ 468,2 milhões.
Em parceria com o Minha Casa, Minha Vida, o programa conta com nove novos empreendimentos, sendo seis com contratos assinados por meio do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR), em Manaus, e três com contrapartida estadual no interior, totalizando 1.489 unidades habitacionais. No interior, são 144 unidades em Iranduba, 400 em Tefé e 294 em São Gabriel da Cachoeira.
No interior, a presença do estado vale tanto quanto orçamento. E não é parte do protocolo — é método de gestão. É ouvir prefeito, vereador, lideranças comunitárias; é destravar convênio; é fazer projeto andar; é acompanhar obra; é garantir que o serviço não pare no meio.
Pela Sedurb e UGPE tenho tido o privilégio de poder exercitar esse novo modelo de gestão e acompanhar agendas tão transformadoras, conferindo sempre de perto, nos municípios, o andamento das obras, cumprimento de cronograma, qualidade dos serviços, transparência dos recursos e entregas dentro do prazo.
Quando a gente soma o que tem sido feito em mobilidade, saneamento, habitação, iluminação e logística, o que aparece é um desenho maior, é o interior deixando de ser “margem” para virar centro de decisão.
O “antes e depois” não é mero slogan. É uma leitura objetiva do território. Ainda há desafios? Claro. O Amazonas é gigante, complexo, e sempre haverá o que fazer. Mas hoje existe algo que, por muito tempo, faltou: uma gestão que não terceiriza a responsabilidade de governar o interior.
No Amazonas, desenvolver é garantir que a distância geográfica nunca mais vire distância de dignidade.
Marcellus Campêlo é engenheiro civil, especialista em Saneamento Básico e em Governança e Inovação Pública; exerce, atualmente, os cargos de secretário de Estado de Desenvolvimento Urbano e Metropolitano – Sedurb e da Unidade Gestora de Projetos Especiais – UGPE
