A frase “você não será substituído pela inteligência artificial, mas por alguém que sabe usá-la” contém uma verdade, mas simplifica uma mudança mais ampla no mercado de trabalho. A IA não deve provocar uma substituição generalizada e imediata, mas já começa a elevar o nível de produtividade esperado e a modificar a maneira como diferentes funções são executadas.
As tarefas repetitivas, administrativas e baseadas em produção padronizada estão entre as primeiras a serem automatizadas. Mas a pressão também alcança cargos estratégicos: executivos que não incorporarem a IA às análises e decisões podem perder relevância para profissionais mais preparados.
Para João Paulo Batistella, executivo de inovação e especialista em transformação organizacional, a IA amplia a capacidade de quem já possui conhecimento e experiência. “Mesmo um profissional tecnicamente superior pode perder espaço para quem souber aplicar melhor essas ferramentas e ampliar sua entrega”, afirma. Em um experimento com tarefas profissionais de escrita, pesquisadores ligados ao MIT identificaram redução de 40% no tempo de execução e melhora de 18% na qualidade média entre os participantes que usaram o ChatGPT.
Com a automação das tarefas mais previsíveis, criatividade, pensamento crítico, adaptação, comunicação e negociação tendem a ganhar valor. A mudança, porém, deve ser mais gradual do que sugerem as previsões alarmistas, porque empresas ainda precisam rever processos, capacitar equipes e reorganizar funções.
O ganho de produtividade também traz um novo risco: a dependência. Ela começa quando o profissional deixa de compreender ou verificar aquilo que entrega. Para Batistella, a tecnologia pode participar do processo, mas não assumir a responsabilidade pelo resultado. “A ferramenta pode ajudar a produzir um relatório, mas o profissional continua responsável pelo conteúdo. ‘Foi a IA que fez’ nunca pode ser uma justificativa para um erro”, afirma.
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A discussão, portanto, não é se a inteligência artificial substituirá todos os profissionais, mas quais deles conseguirão ampliar sua capacidade de entrega. A tecnologia muda ferramentas, processos e produtividade. O diferencial continuará sendo humano: quem souber aprender, adaptar-se e assumir responsabilidade pelo próprio trabalho continuará ocupando espaço em um mercado cada vez mais exigente.
Quem é João Paulo Batistella: Executivo de inovação e especialista em transformação organizacional, João Paulo Batistella, CEO da EISA, construiu sua trajetória nas áreas de tecnologia, estratégia, liderança e desenvolvimento de negócios, com passagens por empresas como Ericsson, Telefônica/Vivo, PT Inovação Brasil e EISA. É engenheiro da Computação pela Unicamp, possui formação executiva pela Fundação Getulio Vargas e produz análises sobre inovação corporativa, inteligência artificial, cultura organizacional e novos modelos de gestão. LinkedIn: https://www.linkedin.com/in/batistellabr/
