Houve um aumento de 40% nos baleados em roubos ou tentativa de roubo desde janeiro;
Ações e operações policiais são responsáveis por 47% dos tiroteios e 50% dos baleados no semestre;
Com 144 baleados, houve recorde no número de atingidos em disputas entre grupos armados.
Os dados do Relatório Semestral do Instituto Fogo Cruzado, lançado nesta quarta-feira (29), mostram que o número de baleados em assaltos chegou ao seu pior índice dos últimos anos. Apenas nos seis primeiros meses de 2026, houve 162 disparos de armas de fogo em roubos e/ou tentativas de roubo, correspondendo a um aumento de 43% em comparação com o primeiro semestre de 2025. O número de vítimas nesses casos também subiu, chegando a 147 pessoas baleadas durante roubos ou tentativas de roubo, um aumento de 40% em relação ao ano anterior, o maior patamar dos últimos quatro anos.
Assim como o número de baleados em assaltos disparou, subiu também a proporção dos tiroteios ocorridos em ações e operações policiais. Somente neste primeiro semestre, as forças policiais participaram, efetivamente, de 47% dos registros mapeados no Grande Rio. É o maior patamar de participação policial em tiroteios nos primeiros seis meses do ano desde 2017. O número de pessoas baleadas durante as ações e operações corresponde a 50% das vítimas mapeadas (401 atingidos), mostrando que a atuação policial é um dos pilares da violência armada na região metropolitana.
Outro indicador que chama atenção é o que registra as disputas entre grupos armados. Apesar da queda de 35% no número de tiroteios nessas circunstâncias (indo de 160 tiroteios no primeiro semestre de 2025, para 104, nesses primeiros seis meses), o número de vítimas chegou ao maior índice já mapeado na série histórica, com 144 pessoas baleadas, e correspondendo a um aumento de 78% em relação aos primeiros seis meses de 2025.
"Os dados mostram o retrato de um estado que não tem política de segurança efetiva há alguns anos. O estado do Rio não tem planejamento, metas, mas tem taxas de investigação baixíssimas. O reflexo disso é o descontrole da violência policial, o alto número de tiroteios em assaltos e o marco de pessoas baleadas em disputas. Tudo isso com tiroteios em queda. Ou seja, menos tiroteios estão fazendo mais vítimas. É um cenário desolador para a população”, avalia Carlos Nhanga, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Rio de Janeiro.
O relatório semestral mostra ainda que ao menos 976 tiroteios foram mapeados na região metropolitana do Rio de Janeiro. Assim como nos anos anteriores, o número de tiroteios continua em tendência de queda. O número de baleados nesse primeiro semestre é próximo ao registrado no mesmo período de 2025. Foram 828 vítimas (416 mortos e 412 feridos) entre janeiro e junho de 2025, e 805 (434 mortos e 371 feridos), nos primeiros seis meses deste ano.
Linha do tempo dos tiroteios e ações policiais
Primeiro semestre de 2026: 976 tiroteios – 47% deles (457) em ações policiais
Primeiro semestre de 2025: 1.221 tiroteios – 41% deles (504) em ações policiais
Primeiro semestre de 2024: 1.346 tiroteios – 34% deles (459) em ações policiais
Primeiro semestre de 2023: 1.779 tiroteios – 38% deles (675) em ações policiais
Primeiro semestre de 2022: 1.829 tiroteios – 32% deles (578) em ações policiais
Primeiro semestre de 2021: 2.784 tiroteios – 28% deles (768) em ações policiais
Primeiro semestre de 2020: 2.604 tiroteios – 28% deles (719) em ações policiais
Primeiro semestre de 2019: 4.176 tiroteios – 26% deles (1.105) em ações policiais
Primeiro semestre de 2018: 4.639 tiroteios – 22% deles (1.014) em ações policiais
Primeiro semestre de 2017: 2.352 tiroteios – 35% deles (826) em ações policiais
Linha do tempo dos baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2026: 144 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2025: 81 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2024: 82 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2023: 85 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2022: 49 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2021: 43 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2020: 14 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2019: 30 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2018: 33 baleados em disputas entre grupos armados
Primeiro semestre de 2017: 38 baleados em disputas entre grupos armados
O mapa da violência armada
Regiões
Entre as sete regiões que compõem o Grande Rio, a Zona Norte concentrou 35% do total de tiroteios e 11% de baleados mapeados no ano. A distribuição da violência armada no primeiro semestre se deu da seguinte forma:
Zona Norte (Capital): 350 tiroteios, 109 mortos e 111 feridos
Leste Metropolitano: 177 tiroteios, 73 mortos e 85 feridos
Baixada Fluminense: 170 tiroteios, 105 mortos e 60 feridos
Zona Sudoeste (Capital): 132 tiroteios, 72 mortos e 57 feridos
Zona Oeste (Capital): 87 tiroteios, 50 mortos e 32 feridos
Centro (Capital): 33 tiroteios, 21 mortos e 17 feridos
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Zona Sul (Capital): 27 tiroteios, 4 mortos e 9 feridos
Municípios
O Rio de Janeiro concentrou 64% dos tiroteios mapeados no primeiro semestre. Os municípios da região metropolitana do Rio mais afetados pela violência armada foram:
Rio de Janeiro: 629 tiroteios, 256 mortos e 226 feridos
São Gonçalo: 103 tiroteios, 43 mortos e 51 feridos
Duque de Caxias: 52 tiroteios, 24 mortos e 20 feridos
Niterói: 49 tiroteios, 22 mortos e 19 feridos
Nova Iguaçu: 27 tiroteios, 24 mortos e 3 feridos
Bairros
O bairro da Maré, na Zona Norte da capital, ocupa o primeiro lugar no ranking entre os bairros da região metropolitana do Rio de Janeiro que mais foram afetados por tiroteios no primeiro semestre, já a Taquara, na Zona Sudoeste, acumulou o maior número de baleados, com 29 atingidos.
Maré (Rio de Janeiro): 29 tiroteios, 6 mortos e 9 feridos
Cascadura (Rio de Janeiro): 26 tiroteios, 6 mortos e 7 feridos
Tijuca (Rio de Janeiro): 25 tiroteios, 3 mortos e 2 feridos
Fonseca (Niterói): 24 tiroteios, 11 mortos e 7 feridos
Taquara (Rio de Janeiro): 23 tiroteios, 17 mortos e 12 feridos
Locais
Ao menos 105 pessoas foram baleadas quando estavam dentro de automóveis, outras 44 foram atingidas quando estavam dentro de bares e 29 foram baleadas quando estavam dentro de casa. Houve ainda 22 pessoas baleadas quando participavam de eventos e oito dentro de barbearias.
O perfil da violência armada
Vítimas por faixa etária
Considerando a faixa etária das vítimas da violência armada, os adultos entre 18 e 59 anos são a maioria, com 768 atingidos. Houve ainda oito crianças com idades até 11 anos, 14 adolescentes entre 12 e 17 anos, e 14 idosos com idades a partir de 60 anos baleados no primeiro semestre.
Agentes de segurança
Ao todo, 58 agentes de segurança foram baleados na região metropolitana do Rio de Janeiro. Entre as vítimas, 25 morreram e 33 ficaram feridos. Entre os agentes baleados, 32 foram baleados fora de serviço, 22 baleados em serviço e quatro eram aposentados/exonerados. Os policiais militares foram os mais afetados pela violência armada, com 45 baleados.
Trabalhadores informais
Ao menos 12 entregadores/motoboys/
Contexto
Chacinas
Houve 24 chacinas na região metropolitana do Rio que deixaram 89 pessoas mortas. Entre os casos, 15 chacinas foram resultado de ações ou operações policiais, deixando 58 mortos. O número de chacinas resultado de ações policiais equivale a 63% do total de chacinas, assim como o de mortos em chacinas policiais representa 65% dos mortos em chacinas.
Balas perdidas
O semestre acumulou 52 vítimas de balas perdidas na região metropolitana do Rio de Janeiro: 13 morreram e 39 ficaram feridas. Entre as vítimas de balas perdidas mapeadas, 20 foram atingidas durante disputas entre grupos armados e 16 em ações e operações policiais, o que representa, respectivamente, 38% e 31% das vítimas de balas perdidas.
Motivos
Entre os 976 tiroteios mapeados ao longo do semestre, foi possível identificar o motivo de 787 deles, o equivalente a 81% dos casos. Os principais motivos dos disparos de arma de fogo na região metropolitana do Rio de Janeiro foram: Ação/Operação policial (458); Roubo/Tentativa de roubo (162); Homicídio/Tentativa de homicídio (107); e Disputa entre grupos armados (104).
SOBRE O FOGO CRUZADO
O Fogo Cruzado é um Instituto que usa tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém.
Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado recebe e disponibiliza informações sobre tiroteios, checadas em tempo real, que estão no único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto ou dos relatórios produzidos mensalmente.
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