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ARTIGO: Estranhar é preciso

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Ricardo Viveiros* 27/06/2026 às 00:00
ARTIGO: Estranhar é preciso
Ricardo Viveiros. Crédito: divulgação.

É estranho nascer, crescer e viver em um país como o Brasil. A cada novo dia sinto que defender a dignidade humana é visto como um posicionamento “ideológico” questionável, e não um mínimo princípio ético. Como se reivindicar que as pessoas vivam sem fome, sem medo, sem abandono do Estado ou sem violência estrutural fosse apenas mais uma opinião política dentro do mercado eleitoreiro, e não um princípio básico de convivência.

Sabemos que a democracia implica em debater e disputar ideias, até persuadir pelo diálogo. Mas há uma enorme diferença entre discutir modelos econômicos ou formas de administração do Estado e precisar esclarecer alguém de que certos grupos humanos merecem direitos, proteção e condições materiais mínimas. Dignidade.

A desigualdade se tornou tão comum que muita gente já não percebe a injustiça como uma emergência moral, mas como algo que nunca vai mudar. E se acomoda nesse pensamento individualista, criticando governos que combatem a fome e criam reais oportunidades para todos na saúde, educação, trabalho, segurança, moradia.

Parece normal ver regiões inteiras abandonadas, crianças desnutridas, líderes sociais assassinados, pessoas deslocadas, trabalhadores explorados e sistemas públicos em colapso, enquanto o debate político gira em torno do medo, da suposta ameaça à propriedade privada ou da fantasia de um inimigo ideológico que “destruirá o país”. E se esconde atrás de factoides, como: a preocupação social vai “dividir casas”, “criar banheiros únicos” e “fechar templos religiosos”.

O que mais chama a atenção não é a existência de cada uma dessas absurdas violências, mas a naturalidade com a qual parte da sociedade aprendeu a conviver com elas desde que não mude sua sensação pessoal de tranquilidade. Ironicamente, até entre os mais necessitados há os que pensam assim. Lembro Simone Beauvoir: "O opressor não seria tão forte se não tivesse cúmplices entre os próprios oprimidos".

Por isso incomoda escutar que é preciso “convencer” o povo a escolher candidatos que defendam o lema "Brasil acima de tudo, Deus acima de todos", (Deutschland über alles), e outros slogans usados pelos nazifascistas. Deus seria amor, não ódio. Estaria em todos, até nos que não têm fé.

O problema não é apenas político, é moral. Mesmo depois de termos sofrido décadas de uma ditadura militar, com torturas, mortes, exclusão e desigualdade extremas, ainda não há um entendimento básico sobre o efetivo valor da vida humana, em especial quando diante de grupos historicamente marginalizados: mulheres, idosos, crianças, indígenas, pretos, LGBTQIAPN+, deficientes físicos e mentais, migrantes, refugiados e outros em situação de vulnerabilidade.

No Brasil várias pessoas defendem de modo abstrato a democracia. Por outro lado, consideram suspeita qualquer iniciativa responsável por reparação da crônica dívida social, justa distribuição de riquezas, melhoria de direitos humanos. O discurso fácil de liberdade precisa ir para a prática, o tema é usado sem compromissos com as mínimas condições de existir. Liberdade implica em respeito, equivalência na diversidade, chances reais para todos, qualidade de vida. Não há democracia onde as pessoas não vivem, apenas sobrevivem.

O relato público dos extremistas insiste em trazer demandas de dignidade como se fossem excessos, populismo, ameaças ideológicas. Porque reconhecer a injustiça estrutural obriga reconhecer os privilégios construídos sobre ela, além dela. Nesse contexto, aparecem as narrativas já conhecidas, o “mais do mesmo” que sabemos bem: falar de direitos divide o país; clamar por igualdade gera ressentimentos; pobreza é problema individual; protestos são perda de tempo; propor mudanças mais profundas é polarizar. Como se a polarização a que se referem tivera nascido de quem se indigna e denuncia a desigualdade, e não de uma trajetória nacional brasileira sustentada por violências e exclusões.

Há coisas que deveriam ser discutidas sob o legítimo princípio da democracia. Como há outras que deveriam ser inadmissíveis: a indiferença diante do sofrimento; a naturalização da desigualdade extrema; a ideia de que a vida alguns vale menos que a tranquilidade econômica de outros.

É hora de pensar, entender e agir. Seu voto é ferramenta, não arma.

*Ricardo Viveiros, jornalista, professor e escritor, é doutor em Educação, Arte e História da Cultura (UPM); membro da Academia Paulista de Educação (APE) e conselheiro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); autor, entre outros livros, de A vila que descobriu o Brasil, Memórias de um tempo obscuro e O sol brilhou à noite.

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