O problema é especialmente grave na Floresta Amazônica. Em média, na região amazônia, as Unidades de Conservação enfrentaram o maior déficit de financiamento, recebendo apenas cerca de 20% do necessário para operar. Em contraste, na Mata Atlântica – a região costeira mais urbanizada e economicamente ativa do Brasil – as UCs receberam cerca de 72% do que necessitavam.
Os pesquisadores da Universidade Federal do Amapá, em Macapá; da Conservação Internacional (CI-Brasil); e da Universidade de Miami, nos Estados Unidos, autores do estudo, examinaram detalhadamente o financiamento de 300 Unidades de Conservação (UCs), que cobrem um total de 749.872 quilômetros quadrados localizados na Amazônia – um cinturão adjacente composto por Caatinga, Cerrado, Pantanal e Pampa, e na Floresta Atlântica costeira. Eles coletaram dados financeiros de múltiplas fontes no período de 2014 a 2023 para avaliar o custo de gerir cada área protegida.
Foram incluídas estimativas de salários e benefícios dos funcionários, bem como os valores necessários para infraestrutura, equipamentos, combustível e operações gerais. Ao comparar esse valor com o financiamento efetivo, descobriram que 72% das áreas protegidas federais do Brasil estavam subfinanciadas, com um déficit de aproximadamente R$2,34 bilhões em 2023.
A análise também revelou que:
Apesar do aumento de 30% no financiamento ao longo da década, os gastos não acompanharam a expansão das terras sob proteção.
O financiamento foi reduzido significativamente em 2020–2021 devido a cortes orçamentários pela COVID-19 e retrocessos deliberados na política ambiental.
A recuperação de investimentos só aconteceu em 2022–2023, mesmo assim de forma parcial.
Unidades de Conservação próximas a cidades e municípios tendem a receber mais financiamento – provavelmente porque as pessoas em áreas urbanas conseguem pressionar o governo de forma mais eficaz para investimentos em conservação.
Por que isso importa
O sistema de Unidades de Conservação do Brasil está entre os maiores do mundo, abrangendo 3,4 milhões de quilômetros quadrados. Essas reservas são essenciais para a conservação global da biodiversidade e para o Brasil, além de fortalecerem seus compromissos sob a Convenção Internacional sobre Diversidade Biológica da ONU. O estudo revela um padrão de subfinanciamento: Unidades de Conservação maiores, mais remotas e mais distantes dos principais centros populacionais são sistematicamente as menos financiadas.
Isso coloca a Amazônia – indiscutivelmente a região ecologicamente mais importante do mundo – em grande desvantagem. Uma unidade de conservação sem pessoal adequado não pode ser devidamente patrulhada, monitorada ou mantida, tornando-a vulnerável ao desmatamento ilegal, à mineração e à caça predatória.
José Maria Cardoso da Silva, professor e chefe do departamento de Geografia e Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Miami, e um dos autores, afirma: “Em um país com alta desigualdade de renda como o Brasil, os investimentos em conservação podem fazer uma grande diferença em lugares com produção econômica tradicional ainda limitada, mas com enorme capital natural. Se as Unidades de Conservação distantes dos centros urbanos forem totalmente financiadas e os recursos forem utilizados localmente, uma economia baseada na conservação, atrelada ao genuíno progresso social, pode ser desencadeada.”
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”Este estudo é fundamental para mostrar as lacunas de investimento que existem em áreas tão biodiversas e importantes como a Amazônia. O abismo entre o que a ciência recomenda e o que o orçamento permite executar compromete a integridade dessa região. Operar com apenas 20% do orçamento necessário não é apenas um desafio de gestão; é uma barreira técnica que impede a ciência de frear o desmatamento e garantir a segurança climática da qual o país depende", explica Bruno Coutinho, Diretor do Laboratório de Inovação em Ciências para Conservação, da Conservação Internacional (CI-Brasil).
Recomendações
O estudo apresenta várias recomendações concretas para a formulação de políticas públicas no país:
Priorizar a Amazônia: Nenhum esforço nacional para fechar o déficit de financiamento da conservação terá êxito sem aumentar drasticamente os recursos destinados às reservas amazônicas. Programas existentes, como o Programa Áreas Protegidas da Amazônia (ARPA) e o Fundo Amazônia, são valiosos, mas insuficientes por si só.
Construir compromissos de financiamento estáveis e plurianuais: O estudo mostra que mudanças de política de curto prazo podem causar danos duradouros. O financiamento da conservação não deve ser refém de ciclos orçamentários anuais ou de mudanças políticas. As áreas protegidas precisam de um planejamento financeiro confiável e de longo prazo.
Criar uma plataforma nacional de financiamento para as Unidades de Conservação: O Brasil deve desenvolver um banco de dados aberto e acessível ao público que rastreie os investimentos públicos e privados em todas as unidades de conservação do país. Isso permitiria maior transparência, tomada de decisão, maior responsabilização e reporte a organismos internacionais.
Investir em unidades de conservação remotas e recém-criadas: Unidades de conservação mais novas e mais isoladas carecem das redes políticas, do apoio institucional e da atenção da mídia que as unidades de conservação mais antigas e mais bem conectadas desfrutam. O apoio direcionado a essas unidades é essencial para fechar a lacuna de equidade.
Helenilza Cunha, professora da Universidade do Amapá e uma das autoras do artigo, conclui: “As áreas protegidas são um elemento fundamental não apenas dos esforços do Brasil para sobreviver às mudanças climáticas de longo prazo, mas também do nosso crescimento econômico futuro, o que significa que devem ser tratadas como ativos estratégicos que merecem financiamento estável ao longo do tempo.”
Sobre o estudo
“Subfinanciamento crônico de áreas protegidas em um país megadiverso: padrões espaciais, temporais e socioeconômicos do Brasil” foi escrito por Helenilza Ferreira Albuquerque Cunha, Luís Cláudio Fernandes Barbosa, Alan Cavalcanti da Cunha e José Maria Cardoso da Silva. O artigo está publicado em Environmental Conservation (Cambridge University Press, 2026). DOI: 10.1017/S037689292610040X. Confira aqui.
Os pesquisadores utilizaram uma década de dados financeiros do Brasil, provenientes do Portal da Transparência do Governo Federal, juntamente com métodos estatísticos avançados, para identificar não apenas os fatores diretos de financiamento, mas também como os padrões de riqueza e de população nas regiões próximas influenciam os gastos com conservação em todo o país.
