Empresas nunca tiveram tanto acesso a dados, relatórios em tempo real e ferramentas de monitoramento como agora. Ainda assim, erros operacionais, decisões estratégicas equivocadas e falhas de gestão continuam acontecendo em larga escala, muitas vezes dentro de organizações altamente digitalizadas.
O paradoxo tem chamado atenção de especialistas em tecnologia e gestão: apesar dos investimentos crescentes em analytics, automação e transformação digital, muitas companhias ainda não conseguem transformar informação em decisões realmente eficientes.
Segundo estimativas de mercado, entre 60% e 73% dos dados gerados pelas empresas sequer chegam a ser analisados. Ao mesmo tempo, executivos relatam dificuldade em transformar indicadores em ações práticas e sustentáveis.
Para especialistas, o problema não está apenas na tecnologia, mas principalmente na maturidade analítica das organizações.
“Ter acesso a dados não significa necessariamente entender o que eles estão dizendo. Muitas empresas criaram uma infraestrutura sofisticada de monitoramento, mas continuam operando sem clareza estratégica”, avalia Guilherme Francescon Cittoli, co-founder e CPO da ST-One, empresa de ciência de dados.
Na prática, isso significa que dashboards coloridos, relatórios em tempo real e métricas automatizadas podem gerar uma falsa sensação de controle, especialmente em ambientes pressionados por produtividade e velocidade de resposta.
A era da “névoa de medição”
A digitalização acelerada dos últimos anos fez com que empresas passassem a medir praticamente tudo: desempenho, produtividade, comportamento do consumidor, engajamento, vendas, tempo de resposta e indicadores operacionais.
O problema é que nem toda métrica representa valor real para o negócio. “Muitas organizações acompanham dezenas de indicadores sem definir claramente quais deles ajudam, de fato, na tomada de decisão. Existe um risco enorme de confundir volume de informação com inteligência”, afirma Giovanni Abate Neto, CTO da companhia.
Especialistas chamam esse fenômeno de “névoa de medição”, quando o excesso de indicadores dificulta a interpretação dos cenários e aumenta a insegurança nas decisões.
Nesse contexto, métricas de vaidade, como visualizações, downloads ou crescimento superficial de indicadores, acabam recebendo mais atenção do que dados ligados à sustentabilidade financeira, eficiência operacional ou comportamento real do mercado.
Excesso de tecnologia não garante decisões melhores
Segundo os especialistas, muitas organizações investem em transformação digital sem antes resolver problemas estruturais ligados à governança de dados, integração de sistemas e cultura analítica.
“Em muitos casos, as empresas passaram a acumular ferramentas sem criar processos claros para interpretar informações e transformar dados em ação”, diz Guilherme Francescon Cittoli.
O cenário também aumentou a pressão sobre lideranças, que passaram a operar em ambientes com excesso de informação, cobranças por velocidade e necessidade constante de monitoramento de resultados.
Para Giovanni Abate Neto, um dos principais erros é acreditar que a automação elimina completamente a necessidade de interpretação humana. “Automatizar processos não significa automatizar pensamento crítico. Ainda existe uma dependência muito grande da capacidade humana de interpretar contexto, identificar exceções e questionar padrões”, afirma.
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Excesso de dados pode levar à paralisia
Outro efeito cada vez mais comum nas empresas é a chamada “paralisia analítica”, quando o excesso de informação dificulta decisões rápidas e objetivas.
Na tentativa de reduzir riscos, lideranças acabam acumulando relatórios, reuniões, cruzamentos de indicadores e validações sucessivas, o que muitas vezes aumenta a lentidão operacional.
Pesquisas também mostram que profissionais frequentemente recorrem ao chamado “feeling” para decidir, mesmo em ambientes altamente orientados por dados. Entre executivos de alto escalão, a prática é ainda mais comum.
Para especialistas, isso acontece porque dados, sozinhos, não eliminam vieses humanos. “Existe uma ideia equivocada de que tecnologia neutraliza erros de julgamento. Na verdade, vieses cognitivos continuam presentes e podem até ganhar aparência de precisão técnica quando são sustentados por indicadores mal interpretados”, explica Giovanni Abate Neto.
O desafio agora é humano
Embora as empresas sigam ampliando investimentos em analytics, automação e digitalização, o principal gargalo da transformação digital continua sendo humano.
Falta de alfabetização de dados, dificuldade de leitura analítica, excesso de indicadores e baixa integração entre áreas aparecem entre os principais desafios corporativos atuais.
Na avaliação dos especialistas, as empresas que conseguirão transformar dados em vantagem competitiva nos próximos anos serão aquelas capazes de equilibrar tecnologia, contexto e capacidade crítica.
“O grande diferencial não está apenas em ter mais dados, mas em conseguir transformar informação em decisões mais consistentes, rápidas e sustentáveis”, conclui Guilherme Francescon Cittoli.
Sobre a ST-One
Fundada em 2020 pelos engenheiros Guilherme Francescon Cittolin e Tiago Machado, e tem como CEO o executivo Rodrigo Cruz R. Gonçalves. A ST-One desenvolve uma tecnologia que utiliza a Ciência de Dados para promover a digitalização em diferentes setores da indústria.
A tecnologia desenvolvida pela startup promove a redução de desperdícios e custos, otimizados os processos de produção e operações na cadeia de suprimentos. Além disso, melhora a qualidade e consistência do produto monitorando diferentes parâmetros relevantes para a indústria.
Em seu portfólio de clientes, conta com marcas como ABinBev, Klabin e Pepsico, exportando tecnologia curitibana para mais de 20 países.
