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Sétima Arte

Toy Story 5 reacende debate sobre infância hiperconectada

Novo filme da Pixar coloca brinquedos em confronto com um tablet inteligente e provoca discussão sobre telas e desaparecimento do tempo livre

C
Central Press <centralpress@centralpress.com.br> 16/06/2026 às 00:00
Toy Story 5 reacende debate sobre infância hiperconectada
A nova animação reacende debates sobre excesso de estímulos digitais e agendas infantis superlotadas. Crédito: divulgação/Colégio Positivo

Woody, Buzz Lightyear e os brinquedos mais famosos do cinema vão enfrentar um novo adversário em Toy Story 5: um tablet inteligente chamado “Lilypad”, criado para disputar a atenção das crianças. Com estreia nos cinemas brasileiros para 18 de junho, a nova animação da Pixar e Disney já provoca debates entre educadores, psicólogos e especialistas em infância, mesmo antes do lançamento oficial.

A nostalgia não é o único motivo das discussões. Ao transformar as telas no centro do conflito narrativo, a franquia reacende debates contemporâneos sobre excesso de estímulos digitais, agendas infantis superlotadas, escolas excessivamente conteudistas, violência urbana e o desaparecimento do tempo livre na infância.

A geração retratada nos primeiros filmes da franquia cresceu em um cenário marcado por brincadeiras presenciais, quintais, vizinhança e maior convivência espontânea entre crianças. Hoje, a realidade infantil é outra. As crianças têm mais acesso à informação, mas menos autonomia física. Estão hiperconectadas digitalmente, mas mais isoladas socialmente, de um modo geral.

Segundo a gerente pedagógica da Educação Infantil e Anos Iniciais dos colégios da Rede Positivo, Hannyni Mesquita, a infância contemporânea passou a ser marcada por dois fenômenos simultâneos: hiperestimulação digital e hiperprodutividade. “Além do tempo diante das telas, muitas crianças vivem agendas semelhantes às de adultos, com atividades extracurriculares sucessivas, restando pouco espaço para o tempo livre, justamente uma das condições mais importantes para o brincar livre e para a imaginação infantil”, afirma.

Tempo livre virou problema Durante décadas, o tédio era considerado parte natural da infância. Hoje, muitos especialistas observam uma crescente “demonização” do tempo livre. “Existe uma pressão permanente para que a criança esteja ocupada, produzindo, aprendendo ou sendo estimulada”, ressalta Hannyni.

Para ela, porém, é justamente nos momentos aparentemente “vazios” que surgem experiências fundamentais: invenção, criatividade, autonomia, imaginação e construção emocional. Uma caixa vira foguete. Um sofá vira castelo. Uma conversa vira brincadeira. “Sem tempo desacelerado, a infância perde parte de sua potência criativa”, alerta.

O desaparecimento das ruas também mudou a infância Outro ponto que atravessa o debate provocado por Toy Story 5 é a transformação dos espaços urbanos. Até os anos 1980 e 1990, crianças brincavam com mais liberdade em ruas, calçadas, praças e terrenos vazios.

Hoje, violência urbana, trânsito intenso, insegurança e hiperproteção reduziram drasticamente a circulação infantil. A consequência é uma infância mais confinada dentro de casa, em ambientes fechados e sob supervisão constante. Hannyni alerta que isso afeta diretamente o desenvolvimento socioemocional. “É nas brincadeiras espontâneas entre crianças que surgem aprendizados importantes sobre empatia, negociação, resolução de conflitos, cooperação e tolerância à frustração”, informa.

O problema não é demonizar a tecnologia Especialistas defendem que o debate deve evitar simplificações. Jogos digitais, plataformas online e redes sociais também podem funcionar como espaços de socialização, pertencimento e criação de identidade para crianças e adolescentes.

“O problema surge quando o universo digital substitui experiências sociais e presenciais, são usadas por horas e sem cuidado parental”, destaca. Segundo ela, uma infância sem convivência, sem movimento, sem natureza e sem tempo livre tende a empobrecer o desenvolvimento emocional e simbólico.

Uma nostalgia que também precisa de cuidado O sucesso da franquia Toy Story também ativa memórias afetivas de adultos que cresceram em uma infância menos mediada por telas. Mas especialistas alertam para o risco de romantizar o passado.

“Infâncias anteriores conviviam com violência física naturalizada, pouca escuta emocional, desigualdade social extrema e ausência de debates sobre saúde mental. Por isso, o desafio contemporâneo não seria ‘voltar ao passado’, mas recuperar elementos fundamentais da experiência humana, como convivência, pertencimento, imaginação, autonomia, tempo livre e vínculos sociais”, afirma a gerente.

O alerta por trás do entretenimento Ao colocar brinquedos diante de um tablet inteligente capaz de monopolizar a atenção infantil, Toy Story 5 toca em uma inquietação compartilhada por muitas famílias: como equilibrar tecnologia, aprendizado, segurança e desenvolvimento emocional sem transformar a infância em uma experiência permanentemente acelerada e monitorada?

Para Hannyni, esse equilíbrio não passa apenas por retirar a tela das mãos das crianças. Para que o tempo longe dos dispositivos faça sentido, é preciso que existam adultos disponíveis para a interação, para a escuta, para a conversa e para a presença. “Talvez esse seja um dos maiores desafios da infância contemporânea: as crianças não são as únicas hiperconectadas. Pais, mães, educadores e cuidadores também vivem atravessados por notificações, urgências, jornadas exaustivas e pela dificuldade de estar verdadeiramente presentes”, alerta.

Nesse sentido, discutir o uso de telas na infância exige também olhar para o comportamento dos adultos. Como responsáveis pela formação das crianças e conscientes dos impactos que a hiperconexão tem produzido no desenvolvimento infantil, é necessário assumir uma posição ativa e responsável.

“A resposta talvez esteja menos em proibir telas e mais em reconstruir espaços de convivência, escuta e brincadeira. Porque, no fim, o maior risco contemporâneo pode não ser a tecnologia em si, mas uma infância cada vez mais entretida e cada vez menos vivida”, finaliza.

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