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Divulgação | Fundação Ellen MacArthur
Economia circular avança globalmente, mas biomateriais seguem tratados sob lógica linear, aponta estudo
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Economia circular avança globalmente, mas biomateriais seguem tratados sob lógica linear, aponta estudo

  • Isabela Guaraldi
  • 15/06/2026
  • Biomateriais
Novo relatório revela desalinhamento entre políticas para economia circular e para biomateriais e aponta cinco pilares para conectá-las


Brasil, Junho 2026 – Novo relatório elaborado pela Fundação Ellen MacArthur, no âmbito do plano de trabalho da Coalizão de Economia Circular para a América Latina e o Caribe, analisou 31 instrumentos de políticas públicas relacionadas à economia circular e aos biomateriais – como papel, fibras naturais, bioquímicos, couro, borracha e madeira – em 12 países, e mostra que os materiais de base biológica ainda são tratados de forma fragmentada, limitando seu potencial dentro da economia circular.

Enquanto as estratégias de economia circular consideram os biomateriais majoritariamente como substitutos diretos de insumos não renováveis, as políticas públicas voltadas aos biomateriais reforçam a lógica linear de extração, produção e descarte. Com isso, perdem-se importantes oportunidades socioeconômicas e ambientais. Os dados fazem parte do relatório Circular por Natureza: Uma Agenda de Políticas para Biomateriais em uma Economia Circular, que acaba de ser lançado.

Embora mais de 100 países já tenham implementado estratégias de economia circular, o avanço das políticas ainda se concentra principalmente em medidas voltadas aos materiais finitos, como plásticos e metais. Porém, quando os princípios da economia circular são aplicados aos biomateriais, é possível obter benefícios como resiliência da cadeia de suprimentos, novas fontes de receita e geração de emprego nas diversas etapas da cadeia, como no reparo, remanufatura e reciclagem.

Isso acontece porque, ao manter materiais de base biológica em uso por mais tempo, é possível reduzir a pressão sobre a terra, diminuir a demanda por extração de recursos virgens e mitigar fatores que impulsionam a degradação dos ecossistemas e as emissões de gases de efeito estufa. Além disso, priorizar o fornecimento a partir da produção regenerativa e de sistemas agrícolas diversificados contribui ativamente para restaurar a saúde do solo, a retenção de água e a biodiversidade, enquanto a compostagem e a digestão anaeróbica devolvem nutrientes de forma segura ao solo. Esses princípios impulsionam a criação de maior valor a partir da circulação dos biomateriais, beneficiando os atores da cadeia.

Para a diretora executiva da Fundação Ellen MacArthur na América Latina, Luisa Santiago, aplicar os princípios da economia circular às cadeias de biomateriais são um caminho para um melhor desenvolvimento com base nos recursos naturais e biológicos abundantes na região.

“Existe uma oportunidade ainda pouco aproveitada de impulsionar o desenvolvimento de países abundantes em natureza com a economia circular. A produção regenerativa de biomateriais é uma forma não só de gerar benefícios ao clima e à biodiversidade, como também de gerar resiliência à produção agrícola, salvaguardando seus ricos ativos naturais no longo prazo. Além disso, na economia circular, é possível agregar muito mais valor aos biomateriais, que são projetados para múltiplos usos, o que, além de gerar mais empregos, é também uma forma de evitar a conversão de mais terras à produção de matérias-primas. É um ciclo virtuoso que, atualmente, as políticas e estratégias em economia circular ainda não captaram, mas que será a nova fronteira para a evolução da economia circular, completa Santiago.

De acordo com Juan Bello, Representante e Diretor para a América Latina e o Caribe do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), este novo relatório aponta um caminho para articular duas áreas fundamentais da agenda de desenvolvimento sustentável dos países da região: a biodiversidade e a economia circular.

“América Latina e o Caribe contam com uma biodiversidade única, que representa um potencial estratégico para avançar em direção a modelos de desenvolvimento mais sustentáveis”, acrescentou. “Por isso, desde que a Coalizão desenvolveu sua visão sobre a economia circular para a região, destacou-se a importância de construir um modelo que promova a resiliência dos ecossistemas e permita que a biodiversidade e as comunidades prosperem. Este novo relatório oferece um guia para que os países da região possam alinhar suas políticas a essa visão e avançar rumo a uma economia de baixo carbono, inclusiva e alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.”

Nesse sentido, a fim de enfrentar essa desconexão entre as políticas para economia circular e para biomateriais, o relatório apresenta cinco pilares de recomendações de políticas públicas, que geram impactos mais significativos quando aplicados de forma integrada: desenvolver produtos para a circularidade com foco na regeneração; viabilizar a circulação segura e eficiente de materiais de base biológica; promover incentivos financeiros e fiscais adequados; investir em inovação, capacitação e infraestrutura; e fortalecer a colaboração entre instituições, setores e países.

Estratégias de economia circular aplicadas aos biomateriais

Segundo o estudo, o intuito das recomendações é que elas levem as cadeias de biomateriais a obterem mais benefícios econômicos e ambientais a partir da incorporação dos princípios da economia circular. Seis estratégias fundamentais mostram como isso é contemplado.

Segundo o modelo, os biomateriais, seus produtos e componentes devem ser:

- Obtidos de forma regenerativa e a partir de matérias-primas secundárias;

- Desenvolvidos sem substâncias potencialmente perigosas;

- Desenvolvidos para durabilidade e retenção de valor;

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- Desenvolvidos para reutilização do material em aplicações secundárias;

- Desenvolvidos para recuperação de materiais e nutrientes;

- Sustentadas por cadeias de valor justas e inclusivas.

Casos do setor privado mostram potencial do modelo

Empresas já consolidadas no mercado global vêm priorizando estratégias de uso dos biomateriais mais alinhadas com os princípios da economia circular, desde a escolha dos materiais e suas origens até o design, a produção e as estratégias para manter produtos e materiais em uso por mais tempo.

A Gucci, por exemplo, uma das marcas mais reconhecidas do segmento de luxo, tem investido em produção regenerativa, como foco em melhorar a saúde do solo, biodiversidade e sequestro de carbono, além de aprimorar a resiliência da sua cadeia de suprimento e garantir que as suas coleções sejam feitas de materiais de alta qualidade e totalmente rastreáveis. A empresa também mantém centros de reparo, para garantir a longevidade e o uso contínuo das peças.

No Brasil, a Lojas Renner segue uma estratégia semelhante ao apostar em circularidade e agricultura regenerativa em sua cadeia de valor. Em parceria com a startup FarFarm, a varejista realizou o projeto Florestas de Algodão para incentivar o cultivo agroflorestal de algodão no Cerrado e apoiar agricultores familiares. A companhia também criou um Guia de Design Circular para orientar o desenvolvimento de produtos com base em princípios da economia circular, como o uso de tinturas naturais e o desenvolvimento de peças com fácil separação dos componentes ou confeccionadas com um único tipo de material, para facilitar a reciclagem ao fim da vida útil.

Mas essa tendência não está restrita ao setor têxtil. No segmento de papel e embalagens, a brasileira Klabin aposta em um sistema de cultivo em modelo de mosaico, que intercala espécies nativas com florestas de espécies comerciais, o que aumenta a produtividade ao mesmo tempo em que contribui para a biodiversidade local. Além disso, a empresa aproveita sua infraestrutura de reciclagem de papelão para reduzir a dependência sobre fibras virgens, ao mesmo tempo em que explora oportunidades de reaproveitar os subprodutos do papel, como a lignina.

SOBRE A FUNDAÇÃO ELLEN MACARTHUR

A Fundação Ellen MacArthur é uma organização internacional sem fins lucrativos que desenvolve e promove a ideia de uma economia circular para enfrentar alguns dos principais desafios da atualidade, como as mudanças climáticas, a perda da biodiversidade, desperdício e poluição. Trabalhamos com líderes dos setores público e privado, assim como acadêmicos, para construir conhecimento, explorar oportunidades colaborativas e projetar e desenvolver iniciativas e soluções para uma economia circular. Progressivamente mais baseada em energia renovável, uma economia circular é impulsionada pelo design para eliminar resíduos, fazer circular produtos e materiais em seu valor mais alto e regenerar a natureza, para criar resiliência e prosperidade para as empresas, o ambiente e as pessoas.

SOBRE A COALIZÃO DE ECONOMIA CIRCULAR DA AMÉRICA LATINA E DO CARIBE

A Coalizão de Economia Circular para a América Latina e o Caribe surgiu do crescente interesse e das iniciativas voltadas à economia circular entre governos, setor privado e sociedade civil, bem como das diversas iniciativas de organizações regionais e internacionais que oferecem apoio técnico nessa área.

Nesse contexto, a Coalizão tem como principal objetivo fornecer uma plataforma regional para fortalecer a cooperação interministerial, multissetorial e entre múltiplos atores, ampliando o conhecimento e a compreensão sobre a economia circular, além de facilitar a formação, a capacitação e a assistência técnica para o desenvolvimento de políticas públicas de economia circular e de consumo e produção sustentáveis.

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