Eleição do representante das artes visuais no Conselho Municipal de Cultura
- 01/05/2025
- Artigo
Um olhar heterodoxo
Não sei se o meu olhar será mais “hetero” do que “doxo” ou se, como é por vezes em certas ocasiões, mais “doxo” do que “hetero”. Seja, porém, qual for, desta ironia, o caso, a verdade é que assisti, com grande curiosidade e interesse, à reunião em que, com carácter oficial e respeitando o quórum, foi eleito o competentíssimo fotógrafo Fabiano Menezes, para o cargo de conselheiro cultural do município de Macapá, para a área das artes visuais, as quais ficaram representadas pelo conselheiro propriamente dito e pelo seu suplente – o experiente e muito inspirado pintor de arte Wagner Ribeiro, os quais foram eleitos por unanimidade e aclamação.
Tive o prazer e a honra de poder assistir ao colégio eleitoral, na qualidade de acompanhante da minha mulher, uma conhecida fotógrafa macapaense, e, naturalmente, como simpatizante das actividades culturais em geral e da arte universal em particular, condição pela qual me foi convenientemente informado que poderia assistir, mas que, obviamente, não poderia votar.
E assisti então efectivamente e com o maior prazer, a esta muito edificante e educativa reunião. Fomos previamente avisados (os raros que chegaram a horas) que em havendo quórum (o qual seria de pelo menos 4 pessoas) a sessão eleitoral começaria meia-hora mais tarde. Tudo normal... Dado assim, finalmente, início ao colégio eleitoral, agora convenientemente caucionada pelo respectivo quórum, foi o pessoal votante colocado perante a instante questão de saber se, eventualmente, haveria mais do que um candidato... não havia... porque se houvesse seria um aborrecimento, seguir-se-iam uma caterva de incómodos e trabalhosos procedimentos, que pudessem conduzir à realização de uma eleição e que esta fosse realizada dentro dos respectivos parâmetros de justiça eleitoral próprios das sociedades democráticas.
Como realmente não havia senão um candidato – o exímio fotógrafo Fabiano Menezes – foi solicitada à diminuta assembleia a eleição por unanimidade e aclamação, pelo que se seguiu a esperada salva de palmas e algumas exclamações de parabéns. É aqui que me apetece ser mais “doxo” do que “hetero”, porque conheço o Fabiano já faz algum tempo e tenho dele, no geral, uma impressão positiva de um artista consistente e de uma pessoa muito dinâmica e empenhada no desenvolvimento da sua arte e da sua classe e guardo dele, pessoalmente, a melhor das impressões e, em particular, de uma aventura, para mim extraordinária e em que eu participei, mais uma vez, como um mero acompanhante, realizada ao longo do rio Aporema, num evento fotográfico de grande alcance, organizado e dirigido por ele (ao que julgo saber, em colaboração com a Prefeitura do Tartarugalzinho) e durante o qual eu fui tratado com uma fraternidade tocante e daquelas que nos deixam amizades e boas recordações para toda a vida.
Distendendo-se então o clima e toda a gente entendendo que o essencial da questão estava resolvido, ainda houve lugar para um pequeno momento de aplicação administrativa através do qual, sem necessidade de melindres inúteis, foi a vez de escolher o suplente, escolha que, como vimos, recaiu sobre o experiente pintor Wagner Ribeiro. A partir daí, generalizada a convicção de que as coisas “sérias” estavam concluídas a contento de todos, a reunião prosseguiu, como dizem lá os meus patrícios, “em amena cavaqueira”, não sem que fosse colocada e debatida uma questão que me pareceu importante, a saber:
Foi a assembleia informada sobre a existência de uma lei que determina que em todo o edifício público que seja inaugurado em Macapá, seja obrigatória a aquisição de uma obra de arte da autoria de um artista local, a fim de que a arte macapaense possa ser promovida e os seus artistas apoiados. Todavia e perante a geral perplexidade, foi também informado que não tinha sido possível encontrar e identificar a respectiva lei, coisa que aliás, não sei se “para” se “doxalmente”, uma das artistas presentes facilmente encontrou quase imediatamente num simples celular. Tão logo percebi o contexto da situação, não deixei de confidenciar, baixinho, ao ouvido da minha companheira, uma primeira reacção e uma vez terminada a reunião e o respectivo cerimonial fotográfico para a posteridade, transmitir de modo pessoal e reservado, ao recém eleito Fabiano, o que era a minha opinião de impenitente democrata, que gosta de se meter onde não é chamado, e que não vi considerada na discussão havida em contexto de reunião, ou seja, se para cada edifício público inaugurado, uma obra tem obrigatoriamente de ser adquirida pelo Estado, não seria uma boa ideia organizar um concurso, o qual permitiria a posteriori a realização de uma exposição com as respectivas obras concorrentes, que fosse, na verdade, a prestação de contas das decisões do júri, que nessas ocasiões sempre se faz necessário escolher e nomear. Não deixei de chamar a atenção para a necessidade de conferir um critério justo e um método paritário de escolha da natureza da obra, uma vez que estamos em presença de um conceito (artes visuais) que envolve mais do que uma disciplina artística e que não seria justo pretender que as várias disciplinas concorressem umas com as outras (poderia ser uma vez um pintor, uma vez um fotógrafo, uma vez um escultor e assim sucessivamente).
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Nos quase 12 anos em que, a espaços, habito em Macapá, tem-me sido dado observar todo o carinho que esta comunidade devota aos seus artistas, sejam eles músicos, cantores, artesãos, pintores de arte, escultores ou fotógrafos e o dinamismo com que alguns têm lutado para que os seus interesses e expectativas sejam atentidos/as, actividade na qual, como já disse, tenho podido sentir da parte do Fabiano Menezes um raro e intenso dinamismo. Finalizada a “missão” propriamente dita, tive ainda a prazerosa oportunidade de conhecer pessoalmente o actor Alan Douglas, que não deixou de me informar sobre o andamento das suas actividades e das obras do Teatro Municipal, que fiquei agora aguardando com toda a curiosidade.
Por Joaquim Morgado
N.B.: Este artigo foi escrito com ortografia portuguesa anterior ao Acordo Ortográfico de 2016
