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Realeza Negra

Príncipe Negro: Jeff Moraes transforma realeza negra amazônica em espetáculo musical

Com oito músicas inéditas, ritmos amazônicos e latino-caribenhos e uma dramaturgia construída entre música, teatro, dança e tecnologia, Jeff Moraes apresenta o espetáculo “Príncipe Negro – Uma Realeza Amazônica”, na Caixa Cultural. A nova montagem marca um momento e propõe uma celebração da existência negra na Amazônia.

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Roberta Brandão 16/09/2026 às 21:17
Príncipe Negro: Jeff Moraes transforma realeza negra amazônica em espetáculo musical
PovosDaFlorestaBelem @amanamidiaa @ianknobrega PovosDaFlorestaBelem @amanamidiaa @ianknobrega

Depois de quase 20 anos de carreira, Jeff Moraes abre, assim, outro ciclo. Um menino preto cresceu, ocupou o palco e agora constrói sua própria ideia de reino. No espetáculo Príncipe Negro, o trono pode ser um curimbó, uma aparelhagem, uma casa de axé ou um microfone aberto. E a realeza está justamente em continuar vivo para ocupá-los. O show será realizado nos dias 17,18,19 e 20, no teatro da Caixa Cultural em Belém, sempre às 19h. Este projeto é realizado por meio do Edital Caixa Cultural 2026.

Há dez anos, Jeff Moraes lançou “Menino Preto”, música que denunciava o extermínio da juventude negra nas periferias de Belém. Uma década depois, a violência que deu origem à canção continua presente. Mas, ao construir seu novo espetáculo, o artista percebeu que deve se manter denunciando e também falar dos meninos que vivem, sonham, criam, dançam e chegam à vida adulta.

É desse deslocamento que nasce parte da força de Príncipe Negro. Se antes o menino aparecia diante da ameaça de ter sua existência interrompida, agora ele também pode imaginar a própria realeza. Para Jeff, isso significou voltar à criança que foi e perguntar quais sonhos aquele menino projetava para o futuro.

“Esse show nasce quando eu começo a olhar para a minha criança. Como eu enxergo os sonhos que a minha criança tinha? Onde eu queria chegar quando estivesse na vida adulta, na vida artística? Comecei a escrever o show a partir dessas vivências.”

A resposta não passa por coroas, castelos ou pelos símbolos tradicionais da monarquia colonial. A realeza vivenciada pelo artista está nos territórios negros amazônicos e nos lugares que ajudaram a formar sua trajetória.

“Quando pensei no Príncipe Negro, fiquei pensando: que realeza eu enxergo dentro das minhas vivências amazônicas? Para quem vive o carimbó, o curimbó sentado é um trono. Para o DJ de aparelhagem, o altar sonoro é um trono, é um lugar de realeza. Dentro de uma casa de axé, o espaço onde acontece a gira é um espaço de realeza. Na rua, um microfone aberto é um espaço de resistência, um espaço de realeza negra amazônica.”

Nessa jornada de montar um espetáculo musical, Jeff Moraes, tem ao seu lado os parceiros de longa data. Viny Araújo,como diretor criativo, cenografia do artista plástico Maurício Frannco, e quem assina a direção artistica é Sandro Santarém e o próprio Jeff Moraes.

Um novo universo no palco

A proposta também marca um novo tempo na carreira de Jeff Moraes. Depois de encerrar o ciclo do álbum Tambor de Beats, lançado em 2022, o artista aposta em uma montagem pensada não apenas como apresentação musical, mas como espetáculo.

O teatro ocupa um lugar importante nessa escolha. Foi também por meio dele que Jeff iniciou sua formação artística, e a possibilidade de trabalhar dentro da “caixa preta” permite construir uma experiência que articula iluminação, imagem, performance, música, dança e dramaturgia.

“É sempre especial para mim tocar no teatro porque ele me leva para essa atmosfera de espetáculo, e não apenas de show musical. Na caixa preta, você consegue brincar com luz, som, imagem, imersão, performance, teatro, balé, dança. Consegue levar as pessoas para um universo que tu quiseres.”

No espetáculo Príncipe Negro, esse universo começa a ganhar forma com um repertório de 13 músicas, sendo oito inéditas. Três delas fazem parte de Tropicalaje, novo EP que Jeff prepara para lançar e que apresenta outra etapa de experimentação musical em sua carreira. Quem assina a produção do álbum é Félix Robbato.

O repertório atravessa ritmos latino-caribenhos e sonoridades amazônicas, como marabaixo e carimbó, dialogando ainda com as experiências acumuladas pelo artista ao longo de quase duas décadas de trajetória.

“Eu encerrei um ciclo do Tambor de Beats e agora começa um novo momento. Ao mesmo tempo em que vou lançar o Tropicalaje, que é uma experimentação rítmica diferente, estou experimentando com muita força o meu lado artístico teatral. É a primeira vez que estou juntando tudo isso e criando de fato uma atmosfera, um universo. Estou criando um novo universo chamado Príncipe Negro.”

Do extermínio à cantiga de vida

Entre as novas composições está “Cantiga de Erê”, criada como contraponto à narrativa de “Menino Preto”. Se a música de 2016 nasceu atravessada pela denúncia da violência, a nova canção se volta para a possibilidade de futuro.

“Cantiga de Erê vem para ser um contraponto ao extermínio, para falar de sonho, para falar de vida, para falar dessa força que parte do tambor, mas que também pulsa dentro da gente”, explica.

Assim, Príncipe Negro não abandona a memória dos que vieram antes nem as violências que atravessam a população negra. A proposta é ampliar o campo da representação: reivindicar também o direito à alegria, à permanência, ao sonho e ao futuro.

“Esse show é uma forma de exaltar todos aqueles que vieram antes, os que estão até agora batendo nesse terreno para que a gente esteja aqui. Esse show fala de vida.”

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