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O Bug do Millenials, segunda parte

“E há tempos, nem os santos/ Tem ao certo a medida da maldade/ E há tempos são os jovens que adoecem” (Renato Russo – “Há Tempos”)

Existe um estudo, feito de dez em dez anos, para medir o índice de Felicidade das pessoas. As medidas foram feitas em 1998, 2008 e 2018. O que vem sendo documentado é que o índice de Infelicidade vem aumentando significativamente de década em década. Temos o paradoxo de uma sociedade de abundância, de acesso quase ilimitado ao conhecimento, de aumento de expectativa de vida e curas que eram impossíveis no século passado e, no entanto, os índices de Ansiedade, Depressão e de Uso de Drogas, Lícitas e Ilícitas, está subindo ano a ano. Sem mencionar os suicídios. Isso é marcado em vários países, sobretudo os mais desenvolvidos. Temos uma pandemia de infelicidade e de jovens se cortando nos banheiros. O que está acontecendo?

Os Budistas dizem há três mil anos que uma fórmula infalível para se manter em permanente Infelicidade é buscar o Prazer e evitar a Dor o tempo todo. Isso parece meio que um contrassenso, já que buscar o prazer e evitar a dor é uma premissa básica para a sobrevivência e a perpetuação da espécie: talvez por isso o Sexo seja uma atividade muito agradável e sair no braço com um Urso, algo que deva ser evitado.

Anna Lembke colocou essa equação de maneira muito clara, fazendo Budismo e Neurociência andarem de braços dados, mesmo sem ter essa intenção: no livro “Nação Dopamina”, a neurocientista descreve de maneira magistral que Prazer e Dor são sistemas que se complementam e se equilibram. Por exemplo, você ganha um Ovo de Páscoa que amava em sua infância, é uma fonte de gratificação imediata, chocolate e açúcar aumentam os níveis de Dopamina, gerando prazer e vontade de usar mais, e aí, já viu, você devora metade do ovo em alguns minutos e depois do prazer inicial, vem uma espécie de ressaca. A ressaca não é só a culpa e a ressaca moral, é um mal estar mesmo. O círculo da compulsão de mantém comendo a outra metade, buscando aquele prazer ultra rápido para cair de novo em prostração. Como se pode notar, o mecanismo da compulsão é o mesmo, para Cocaína, Chocolate, Pornografia ou qualquer outra atividade que se mantenha até a exaustão e o adoecimento: a busca do prazer imediato e a fuga do desprazer que vem depois.

Da mesma forma, a Dor também gera a liberação de Endorfinas e ativa áreas de alívio e prazer no Sistema Nervoso Central. Depois de um treino de musculação, por exemplo, que não é agradável, vem uma sensação de prazer. Já estão sendo testados tratamentos semelhantes à dependência de drogas para os casos de auto lesões, como os cortes na pele e outras maneiras desagradáveis de obter dor seguida de prazer. Essas escarificações e lesões teriam o mesmo mecanismo compulsivo das dependências químicas. A dor do corte ativa os sistemas de alívio e prazer. Louco, não?

Estamos vivendo, portanto, numa Sociedade de Drogados e estamos todos enterrados nisso até o pescoço. As Redes Sociais, a Propaganda, o Hiperconsumo, tudo está voltado a busca de prazer e a evitação da dor.

Uma cliente minha, na casa dos trinta anos, demitiu-se recentemente de seu escritório, onde ganhava bem e tinha posição de destaque, simplesmente porque não aguentava a sobrecarga de serviço. Os estagiários e os auxiliares com menor senioridade, diante de tarefas complexas, “derretiam”, entrando em colapso e chorando na frente do computador. Ela tinha que fazer seu trabalho e consertar as tarefas desses milennials. Essa geração que passou o período escolar fazendo trabalhos na base do “Recorta e Cola”, não sabe estruturar uma tarefa, definir objetivos, entregar o que foi pedido com um mínimo de crítica se atendeu ou não o objetivo traçado. Um outro cliente se diverte com a busca no mercado de pessoas na faixa dos cinquenta anos que sabem o começo, o meio e o fim das tarefas, enquanto os jovens se afundam na angústia de não saber organizar cognitivamente seu trabalho e entregas. Ter diploma e não ter o conhecimento que aquele diploma supõe não adianta absolutamente nada para competências.

Precisamos de um trabalho psicopedagógico em todas as fases do Ensino para criar pessoas mais críticas quanto ao bombardeio de prazeres imediatos e as rodas de hamster de compulsões que nos atingem o tempo todo. As compulsões, o hiper estímulo e a falta de atenção estão criando um mundo de zumbis, amortecidos e infelizes. Como diria o poeta, há tempos são os jovens que adoecem. É muito importante assoprar o apito que estamos todos sendo condicionados às compulsões. E que criar distância disso ajuda a recuperar nossa sanidade perdida na era dos Smatphones.

 

*Marco Antonio Spinelli é médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro Stress - o coelho de Alice tem sempre muita pressa

Leia a primeira parte do artigo aqui

Marco Antonio Spinelli

Marco Antonio Spinelli

É médico, com mestrado em psiquiatria pela Universidade São Paulo, psicoterapeuta de orientação junguiana e autor do livro Stress - o coelho de Alice tem sempre muita pressa.

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