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PONTOS FRACOS

O mundo do gerenciamento da inovação é fascinante. Talvez o fundamento maior desse fascínio seja a constatação de que seres imperfeitos, isoladamente, almejam alcançar a perfeição, em grupo. Evidentemente que essa ambição não é de curto prazo. E tampouco de longa persecução, no sentido que possamos delineá-la no tempo. A perfeição almejada virá um dia porque faz parte da essência da vida aperfeiçoar-se continuamente, ao infinito. E melhoria contínua infinita é praticamente sinônimo de perfeição. E como criaturas imperfeitas criam artefatos também imperfeitos, toda organização também carrega consigo a imperfeição. É este o sentido que se dá, em última instância, ao que as teorias gerenciais e organizacionais chamam de pontos fracos. Desta forma, este ensaio tem como objetivo esclarecer o papel central dos pontos fracos nos esforços gerenciais da inovação tecnológica.

O referencial para a compreensão da fundamentalidade dos pontos fracos para as organizações é a visão de futuro. Toda organização precisa ter uma visão de futuro desejado, que é, tecnicamente falando, seu macro-objetivo. É em relação a essa visão que as forças internas da organização poderão ser classificadas em positivas (fortes) ou negativas (fracas). É um ponto fraco porque fragiliza a organização em relação às forças ambientais adversas e, consequentemente, ao suprimento das demandas externas. Se o ambiente demanda um tipo de tecnologia que minha organização não pode produzir porque meu quadro de pesquisadores não detém a expertise básica para produzi-la, a expertise do meu pessoal é um ponto fraco. E como a oferta de tecnologias faz parte da missão da minha organização, é necessária alguma ação sobre o quadro de pessoal, sob pena de fracasso iminente.

É justamente neste sentido que os pontos fracos precisam ser vistos e interpretados: como algo que precisa ser eliminado. Mas é preciso esclarecer o sentido preciso do termo “eliminar”, que significa reduzir o poder destrutivo daquele ponto importante para a organização (como é o caso da expertise do quadro de pessoal), sem o qual não pode alcançar sua visão de futuro; no entanto, do jeito em que se encontra, aquele ponto importante fragiliza a organização, impede que ela alcance o pretendido. No caso da fraqueza da expertise do pessoal, uma forma de eliminá-la é dotar cada indivíduo com a capacidade inventiva necessária para a produção da tecnologia demanda pelo ambiente externo que, neste momento de fraqueza, não pode ser suprida. Eliminar um ponto fraco significa transformá-lo em forte. Não significa, portanto, descarte, abandono.

E como a referência é sempre a visão de futuro, a maior ou menor proximidade da organização para com ele é devida à maior ou menor adequação entre a demanda do ambiente externo e o suprimento que a organização é capaz de fornecer. Daí advém que, é sobre as atividades-fins que devem recair as análises para a detectação daquilo que impede a instituição de produzir e suprir com adequação o ambiente externo com as inovações que ele demanda. É sobre cada sistema de produção que os pontos fracos agem. Se a instituição tem um sistema de produção de inovação industrial, pontos fracos aí existem (sempre há pontos fracos) que precisam ser eliminados. Se um sistema não apresenta pontos fracos, não há mais o que nele ser melhorado. Nada pode ir além da perfeição. Se isso acontecer, a organização se conhece e tende a morrer, em consistência com a segunda lei da termodinâmica.

Atividades-meio devem sempre estar vinculadas às atividades-fins. Ainda que a assessoria de comunicação apareça, no organograma, vinculada ao executivo de topo (o que é um erro crasso), sua atividade tem que focar as atividades-fins. Por mais que seja mais bonito que os serviços jurídicos estejam grudados no presidente da instituição, a lógica gerencial mostra que suas atividades têm que se concentrar nas atividades-fins. Tudo, absolutamente tudo na organização tem que orbitar as atividades-fins. A razão disso? São as atividades-fins que concretizam a visão e que materializam a razão de existência da instituição. Se essa regra básica não for seguida, as atividades-meios se transformarão no principal centro gerador e irradiador de problemas para a organização, quase sempre confundidos como pontos fracos institucionais. Daí advém a necessidade de não se confundir problemas organizacionais com pontos fracos. Pontos fracos é fragilização vinculada às atividades-fins, e que impedem ou retardam o caminhar da organização rumo à sua visão de futuro.

Isso tudo significa que o papel fundamental dos pontos fracos é fazer a organização voltar para si mesma e se conhecer. Quantos mais pontos fracos identificar, mais a organização efetivamente se conhece. E terá dado, dessa forma, o passo decisivo para se modificar, melhorar-se, aperfeiçoar-se, desenvolver-se. Sem conhecimento dos pontos fracos não há evolução, a visão não se concretiza e o corpo gerencial muitas vezes é pega de surpresa, como quase todas as instituições federais o foram recentemente em relação ao orçamento. Demonstraram pontos fracos gigantescos, abissais, que vão desde a incapacidade de gerar seus próprios recursos financeiros até o escancaramento da falta de aptidão para previsões fiscais. Nossas instituições são geniais em discursos, mas ainda rudimentares na prática econômico-financeira. São pontos fracos que podem levar qualquer instituição, ainda que seja pública, à falência. O ambiente externo não se alinha com esse tipo de comportamento.

Há inúmeros procedimentos, técnicas, métodos, tecnologias, instrumentos, ferramentais, dentre outros recursos, que podem ser utilizados para identificar os pontos fracos e transformá-los em pontos fortes. E esse parece ser um processo natural na prática gerencial que os estudos científicos têm documentado com maior intensidade e precisão nos últimos anos. Esses estudos têm mostrado que é necessário que as ações institucionais se alinhem com as necessidades ambientais porque é o próprio ambiente externo que cria as instituições. Governos, sociedades, empresas, comunidades, enfim, tudo o que possamos imaginar (e o que não imaginamos) faz parte do ambiente externo e, ao mesmo tempo, da instituição. A instituição está mergulhada, portanto, no ambiente externo e, por essa razão, não é capaz de burlá-lo, ignorá-lo, sem sofrer consequências indesejadas. Deve-se tratar adequadamente os pontos fracos.

Dr. Daniel Nascimento e Silva

Dr. Daniel Nascimento e Silva

PhD, Professor e Pesquisador do Instituto Federal do Amazonas (IFAM)

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