Qualquer estratégia de aprendizagem estará incompleta, se não souber como lidar com as emoções. Na verdade, se não houver emoção, dificilmente haverá aprendizagem. E sempre haverá emoção nesse processo, entendida a emoção como a influência dos sentimentos naquilo que fazemos. Disso se pode compreender que há os sentimentos que tentam influenciar a aprendizagem, chamados de emoções positivas, e aqueles que tentam, se não impedi-la, pelo menos adiar, procrastinar, deixar para depois, que chamamos de emoções negativas. O sentido de positivo ou negativo é meramente se ajuda ou impede que a aprendizagem se processe. A formulação das estratégias de aprendizagem tem o desafio, portanto, de evitar as emoções negativas e aproveitar ao máximo as positivas. Mas, se o aprendia ou o educador, tiver a habilidade de lidar com as emoções negativas, poderá obter efeito multiplicador para os resultados de aprendizados pretendidos. Assim, este ensaio tem como objetivo mostrar como lidar com as emoções durante o processo de aprendizagem.
O cérebro apresenta tendência a manter rotina durante o processo de aprendizagem. Diante de novo objetivo, em primeiro lugar ele lança mão dos caminhos que conhece para tentar alcançar o novo destino; se fracassar, tende a evitar enfrentar o desafio de construir um novo caminho que o novo objetivo requer. Grosso modo, é como se ele tentasse solucionar todos os tipos de problemas com o estoque de procedimentos que ele conhece. Mas acontece que problemas novos exigem outros caminhos, ainda que, em certos trechos, partes dos caminhos conhecidos possam ser utilizados. Há, portanto, pelo menos três possibilidades de trajetos, com suas respectivas tipologias emocionais.
O primeiro tipo é o da aplicação do estoque de procedimentos conhecidos. Funciona mais ou menos assim: surge o desafio, o cérebro tenta entender o esquema lógico, como os esquemas causa-efeito, depois testa a solução existente na solução do problema que apareceu. À medida que o caminho conhecido vai sendo utilizado e o sucesso vai aparecendo, o cérebro vai produzindo emoções positivas, que reforçam prazerosamente o prosseguimento da solução até o final. À medida que vão ficando mais claras as próximas etapas, mais e mais as emoções positivas vão se somando, reforçando o prosseguir da caminhada. Um sentimento de vitória (expansão do ego) pode ser sentido e que é reforçado quando os amigos e colegas reconhecem a validade e a confiabilidade da solução apresentada.
O seguinte trajeto é o que consiste em soluções parciais e frustrações. Funciona mais ou menos assim: surge o problema, o cérebro busca a solução existente que mais se adequa à situação; quando a primeira etapa se encaixa, emoções positivas aparecem e reforçam o caminhar, mas se não se encaixa, a procrastinação aparece em forma de sentimentos do tipo “posso fazer depois” ou “tenho compromisso mais urgente” e assim por diante. É aqui que a maioria fracassa, ao deixar de lado o desafio. Aos que prosseguem, o cérebro tenta ver similaridades de partes de caminhos conhecidos que se encaixam ao novo problema. Daí ele vai resolvendo primeiro as partes conhecidas, deixando as desconhecidas para depois, o que é uma estratégia interessante. Depois que as soluções parciais são validadas, o esforço que falta é a ligação dessas soluções validadas com soluções que precisam ser construídas. E isso fica facilitado porque se tem uma solução a montante e outra a jusante, carecendo apenas de uma solução-ponte que, com um pouco mais de esforço, faz o cérebro fazer novas ligações neuronais entre as soluções parciais finalizando o trajeto.
O terceiro trajeto é o mais desafiador porque o cérebro reconhece que não tem a mínima ideia de que caminho seguir. É como nunca ter ouvido falar de automóvel e ter que aprender a dirigir. Caminhos que não existem e nunca existiram terão que ser construídos. A ciência da aprendizagem recomenda que isso seja feito em partes. Isso exige, antes, que se identifique pelo menos as principais etapas do trajeto. “Ações preliminares” poderia ser a primeira etapa, em que o aprendiz aprende a entrar no carro, colocar o cinto, ajustar a direção, o banco, os espelhos etc. “Movimentar o carro” poderia ser a segunda etapa, em que conhecimentos e habilidades de ligar o automóvel, passar as marchas, seguir um trajeto, obedecer à sinalização e assim por diante seriam os desafios particulares desse grande bloco. “Estacionar o carro” poderia ser a última etapa, com as habilidades necessárias para tal. Note que a etapa “ações preliminares” tem uma lógica interna, que é “preparar o carro para ser movimentado”, que é a etapa seguinte, só pode ser completada se cada um dos conhecimentos e habilidades específicas (abrir o carro, abrir a porta, sentar, ajustar o banco etc.). Conhecimentos e habilidades específicas aprendidas geram o entendimento de cada parte e conhecimentos e habilidades de todas as partes geram o conhecimento global, que é o caminho novo que o cérebro terá que aprender.
Nesses trajetos complexos, cada conhecimento e habilidade específica que se aprende gera a emoção respectiva, caso haja fracasso (negativa) ou sucesso (positiva) transitório. O grande desafio, portanto, é que o aprendiz saiba como controlar as emoções negativas, que quase sempre têm força, no início, suficiente para lhe fazer desistir. Se o aprendiz, a cada fracasso, se renovar de energia, como quem diz “eu fracassei neste momento, mas vou te provar, cérebro, que você é capaz de aprender”, muito provavelmente fará com que novas ligações neuronais ocorram que levam à construção do caminho cerebral pretendido.
Todos os grandes vencedores que conheço têm essa incrível capacidade de multiplicar suas emoções positivas quando algum fracasso lhes advém. Há o caso do economista que fracassou 14 vezes no processo seletivo ao doutorado em economia. Mas a cada fracasso, mais e mais ele se nutria de novas energias para a próxima tentativa. Conseguiu seu objetivo na décima quinta vez. É isso o que todos precisam entender: se não desistir, um dia o sucesso vai chegar. Vai depender, naturalmente, da sua força de vontade e de sua capacidade de lidar com as suas emoções. Afinal, todos podem ser gênios, desde que saibam como aprender.