Amapá Digital | Quinta-Feira, 12 de março de 2026.
Desenvolvido por aluno durante o MBA em Ciências de Dados do ICMC, trabalho mostra que adaptação no discurso político é rápida e persistente após a troca partidária.
No começo do ano, especialmente quando há eleições, como é o caso de 2026, é comum observar políticos migrando de partido em um movimento chamado de janela partidária. Mas será que, nessa busca por novas alianças e oportunidades estratégicas, esses políticos carregam consigo o posicionamento político da legenda pela qual foram eleitos? Foi para responder a essa pergunta que Arthur Gomes Nery desenvolveu uma pesquisa no MBA em Ciências de Dados, oferecido pelo Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI) e pelo Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos.
Intitulada Adaptação retórica após a mudança de partido: evidências da Câmara dos Deputados do Brasil, a pesquisa foi orientada pela professora Cibele Russo, do ICMC, e investigou se e em qual medida a retórica de um parlamentar muda após sua migração para uma nova legenda partidária.
Para Arthur, que atua como analista de estudos econômicos na Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), a questão investigada toca em um ponto importante da cultura política brasileira. “Nós, brasileiros, estamos de certa forma acostumados com isso. Desde cedo aprendemos que vamos conhecer muitos partidos diferentes e que, muitas vezes, acompanhamos o político e não a legenda”, afirma.
Na sua avaliação, porém, esse padrão levanta questionamentos importantes sobre o funcionamento da democracia representativa. “Em sistemas com múltiplos partidos, as siglas precisam ter identidade e propósito. O objetivo do meu trabalho foi justamente investigar se podemos confiar no rótulo partidário e até que ponto, na prática, precisamos olhar muito mais para o indivíduo do que para o partido”, destaca Arthur.
Como a pesquisa foi desenvolvida – Apesar de não estar vinculada diretamente à sua área de atuação na OCB, onde realiza análise de dados, pesquisas e estudos internos, Arthur conta que chegou ao tema ao acompanhar as ações de advocacy que a instituição faz junto à Câmara dos Deputados. Segundo ele, seu background da época da graduação em Economia, período em que trabalhou com processamento de linguagem natural (PLN), levou ao insight de explorar a Interface de Programação de Aplicações (API) de dados abertos da Câmara. “É muito rica, os dados são limpos e fáceis de serem organizados e mereciam ser analisados de forma mais profunda”, salienta.
O analista coletou 360 mil discursos da Câmara dos Deputados, de 2003 a 2025, aplicando técnicas de PNL, de forma a transformar os discursos em informações quantificáveis, capazes de revelar padrões de vocabulário, posicionamento e alinhamento político.
A partir daí, testou modelos capazes de identificar a “assinatura discursiva” associada a cada partido, criando parâmetros que permitissem comparar o modo de falar dos parlamentares antes e depois da mudança de legenda. Para não incorrer em erro, o pesquisador também recorreu a métodos de inferência causal. “Essa metodologia serviu para validar se eventuais alterações são realmente associadas à migração partidária, e não a outros fatores, como o contexto político. Um evento como o impeachment da presidente Dilma, por exemplo, pode trazer características únicas de discurso para sua legislatura”, assegura Arthur.
Combinando essas técnicas, o pesquisador conseguiu mensurar que a troca de partido é acompanhada, em média, por uma redução de cerca de 34% no alinhamento retórico do parlamentar com sua legenda de origem, ou seja, que a mudança partidária não é apenas formal, mas se reflete de maneira mensurável no discurso.
Por outro lado, cerca de 70% dessa mudança está relacionada a quem e ao que os deputados passam a mencionar, sendo algo esperado, segundo o pesquisador. “Ao mudar de partido, o parlamentar tende a falar mais da nova legenda, citar integrantes da nova coalizão e defender pautas associadas a esse grupo”, explica.
Por outro lado, o pesquisador detectou que 30% dos casos realmente se referem a uma mudança retórica, ou seja, a mudança de palavras usadas, a escolha de um novo enquadramento dos temas e uma outra maneira do deputado estruturar seus argumentos. “Já no primeiro bimestre, ou seja, 60 dias após a troca, os discursos dos deputados tornam-se significativamente menos propensos a serem classificados como pertencentes ao partido anterior. Além disso, a mudança é durável, persistindo por todo o período de observação, de 12 meses”, ressalta.
De acordo com o especialista em ciência de dados, não é possível afirmar o mecanismo por trás dessa mudança, se é por ideologia, por absorção da fala dos novos colegas do partido, se é involuntário, etc. “Nossa pesquisa é exploratória e conseguiu evidenciar que a mudança existe, mas para acrescentar a razão por trás dessa mudança, precisaríamos realizar novas análises empregando outras metodologias”, conclui.
Texto: Gabriele Maciel, da Fontes Comunicação CientíficaSob supervisão de Denise Casatti, da Assessoria de Comunicação do ICMC/USP
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