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Meio Ambiente

Por que os desmatadores investem em destruir a floresta amazônica – 6: commodities e fatores locais de desmatamento

Entre os resultados financeiros da pecuária, em Apuí (Amazonas), está um investimento que resultará em aumento de pastagem, levando a aumento de desmatamento e à expansão da fronteira. Estudos apontam que os lucros dos fazendeiros são desproporcionais ao desenvolvimento da região e levanta questões como aumento de especulação imobiliária.

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Por Pedro Gandolfo Soares, Philip Martin Fearnside e Gerd Sparovek 19/08/2026 às 00:00
Por que os desmatadores investem em destruir a floresta amazônica – 6: commodities e fatores locais de desmatamento
Área de queimada no município de Apuí (Foto: Bruno Kelly/ Amazônia Real).

O preço favorável da carne bovina é outro incentivo importante que possibilita a expansão da fronteira pecuária em Apuí (Amazonas). Os retornos financeiros da produção de carne bovina em Apuí eram baixos ou negativos em períodos anteriores, e a especulação imobiliária explicava a atratividade da pecuária [1]. Estudos em outras partes da Amazônia brasileira em períodos anteriores também constataram que a pecuária em si (independentemente de ganhos especulativos e incentivos fiscais) gerava lucros muito marginais apenas para os grandes fazendeiros [2]. Os lucros dependiam fortemente de subsídios governamentais e ganhos especulativos [3, 4]. No presente estudo, os dados coletados em 2021 demonstram que os lucros da produção pecuária e da especulação imobiliária são altos e proporcionam retornos maiores e muito mais rápidos (com menor risco) do que outras oportunidades de investimento disponíveis. A alta rentabilidade da produção de carne bovina é um novo fator observado em Apuí.

O presente estudo acrescenta uma variável ao demonstrar resultados financeiros positivos e consistentes em todos os grupos de atores com posses fundiárias (pequenos, semi-pequenos e médios e grandes) (Tabela 4). Essa elevada rentabilidade pode ser parcialmente explicada pelo cenário político brasileiro em 2021 (agenda política altamente permissiva em relação ao desmatamento durante o governo de Jair Bolsonaro), aliado ao aumento dos preços da carne bovina na região, o que proporcionou estímulos adicionais para a especulação e a expansão da fronteira da pecuária.

A receita total da pecuária, indicada pelo grupo de 46 atores com posses fundiárias que participaram do estudo, foi de US$ 1.457.044 em 2020. Esse valor, relatado por um número limitado de atores locais, é muito significativo quando comparado, por exemplo, ao total de transferências financeiras do Tesouro Nacional para a prefeitura municipal de Apuí (US$ 3,9 milhões em 2020). A renda relatada da pecuária também é muito significativa quando se considera o total do Imposto sobre a Propriedade Rural (IPR) arrecadado em Apuí nos últimos anos (US$ 1.000 em 2020), o que sugere que a receita obtida com a pecuária é separada das receitas e contas municipais (Tabela 5). Devido aos resultados financeiros positivos obtidos com a especulação imobiliária e a pecuária por todos os participantes do estudo, a receita total da pecuária é significativa. Com base nos grupos de atores com posses fundiárias avaliados neste estudo, espera-se que o investimento total na expansão de pastagens aumente em Apuí nos próximos anos, levando a um maior desmatamento e à expansão da fronteira da pecuária.

Notas

[1] Razera, A., (2005). Dinâmica do desmatamento em uma nova fronteira do Sul do Amazonas: uma análise da pecuária de corte no município do Apuí. Universidade Federal do Amazonas (UFAM) & Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA), Manaus, AM.

[2] Mattos, M.M., Uhl, C., (1994). Economic and ecological perspectives on ranching in the Eastern Amazon. World Development. 22, 145–158.

[3] Hecht, S.B., (1993). The logic of livestock and deforestation in Amazonia. BioScience 43(10), 687-695.

[4] Hecht, S.B., Norgaard, R.B., Possio, G., (1988). The economics of cattle ranching in eastern Amazonia. lnterciencia 13(5), 233-240.

[5] Tesouro Nacional. (2022). Secretaria do Tesouro Nacional. Transferências Constitucionais Realizadas — Tesouro Transparente.

[6] Esta série é uma tradução de: Soares, P.G., Fearnside, P.M. & Sparovek, G. 2026. Deforestation in the Brazilian Amazon: Why do local stakeholders on the frontier invest in clearing rainforest? Regional Environmental Change 26, art. 67.

Sobre os autores

Pedro Gandolfo Soares possui bacharelado em Gestão Ambiental pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ/USP) e mestrado em Ecologia Aplicada pelo Centro de Energia Nuclear em Agricultura (CENA)/ESALQ, Universidade de São Paulo, Piracicaba-SP. Ele trabalha com mudanças climáticas e REDD+, tendo trabalhado no Instituto de Conservação e Desenvolvimento Sustentável da Amazônia (Idesam) e em Manaus, e em diversos projetos de conservação na Amazônia.

Philip Martin Fearnside é doutor pelo Departamento de Ecologia e Biologia Evolucionária da Universidade de Michigan (EUA) e pesquisador titular do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), em Manaus (AM), onde vive desde 1978. É membro da Academia Brasileira de Ciências e pesquisador 1A de CNPq. Recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelo Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC), em 2007. Tem mais de 850 publicações científicas e mais de 850 textos de divulgação de sua autoria que estão disponíveis aqui.

Gerd Sparovek possui graduação em Agronomia e mestrado dourado em Agronomia (Solos e Nutrição de Plantas) pela Universidade de São Paulo (USP). Ele é professor e pesquisador aposentado do Departamento de Ciência do Solo, Escola Superior de Agricultura ‘Luiz de Queiroz’, USP, Piracicaba-SP e, desde 2022, atua como Professor Sênior junto ao Instituto de Estudos Avançados da USP, com estudos voltados ao suporte à decisão de governança pública, agricultura familiar, agricultura de baixo carbono, reforma agrária, mercado institucional de alimentos, crédito fundiário, assistência técnica e extensão rural, expansão de fronteira agrícola irrigada, intensificação agrícola, e o código florestal.

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