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✒ Artigo

Um canto para ninar

Cada noite, uma mulher, através das finas paredes da sua casa, escutava a criança muito pequena dos seus vizinhos chorar. Os pais a colocavam para dormir sozinha, no escuro. Eles assistiam à televisão numa outra sala. Deste jeito eles pensavam que isso teria fortalecido o seu caráter e alcançado um bom grau de autonomia. A criança chorava desesperada e naquele choro a mulher reconhecia toda a solidão e o medo da pequena criatura. O que fazer? A mulher tinha receio de falar com os pais, temia piorar a situação. Pensou que como ela escutava a menina, também a criança devia ouvi-la. Assim decidiu cantar. Cada noite, depois que os pais tinham deixado sozinha a criança, ela cantava algum canto para ninar, falava com a criança, a consolava e lhe dava segurança. Embalada por aquela voz que vinha do outro lado do muro, a criança parava de chorar e adormecia tranquila. O calor de uma voz desconhecida a salvara do frio da solidão. 
Com o 3º Domingo do Tempo Comum voltamos a ler trechos do evangelho de Lucas. A Liturgia da Palavra combina os primeiros versículos deste evangelho com o início do capítulo 4 do mesmo. A preocupação de Lucas é aquela de responder a possíveis dúvidas sobre a existência histórica de Jesus. Ele apela para as “testemunhas oculares” e a um “estudo cuidadoso de tudo o que aconteceu” (Lc 1,1-3). Tudo isso para que os leitores do evangelho, representados pelo “excelentíssimo Teófilo” possam “verificar a solidez dos ensinamentos” transmitidos. Nós já entendemos que os evangelhos não têm a finalidade de contar a vida de Jesus, mas propô-lo como objeto da fé e do compromisso para todos aqueles e aquelas que o acolherem como o Cristo, o Ungido, que o Pai enviou. No entanto, o “Jesus da fé” não foi uma invenção de discípulos interesseiros em espalhar novas doutrinas. Isto seria impossível se não tivesse existido realmente um homem chamado Jesus que viveu, falou, agiu, morreu e ressuscitou daquele modo. Mas, afinal quem foi este homem? O que ele pretendeu fazer? 
Podemos dizer que o capítulo 4 do evangelho de Lucas responde a estas perguntas, uma auto apresentação de Jesus – “Hoje se cumpriu esta passagem da Escritura” (Lc 4,21) – através da profecia de Isaías. Ele se apresenta como o Cristo, o ungido pelo Espírito, que tem uma missão a cumprir: “anunciar a Boa-nova aos pobres”. Unção e missão estão juntas. Nas Escrituras ninguém se envia por si mesmo, sempre recebe de Deus a tarefa que deve cumprir. Os destinatários do anúncio não são um “todos” genérico; são “os pobres” e alguns grupos de sofredores escolhidos: os cativos, os cegos, os oprimidos. Por quê? Sempre nas Escrituras, os “pobres” por definição são os desamparados, aqueles que, sozinhos, não dariam conta de sobreviver; em geral são “os órfãos e as viúvas”, os que ficaram sem ninguém para ajudá-los. Também o idealizado “ano de graça do Senhor”, era o tempo do cancelamento das dívidas e da relativa escravidão, o tempo da volta à própria terra, ou seja, à dignidade e ao sustento para si e a família. Finalmente, agora, “hoje”, com Jesus, Deus ouviu o grito e o choro dos pobres e enviou o seu “ungido” para salvá-los. Talvez, precisa ter passado por momentos de solidão e abandono para saber o que significa isso na vida das pessoas. A quem recorrer quando todas as portas se fecham, quando os recursos acabam, quando o frio da solidão apaga toda a esperança?  Obviamente sempre poderemos fazer uma leitura “espiritual” desta e de outras páginas do evangelho de Lucas porque, de fato, sempre vão existir solidões humanas que não dependem da situação financeira. No entanto, para muitos, o dinheiro é ainda a única segurança, a mais certa. E Deus? Fica mesmo só para os pobres de bolsos vazios ou para quem entendeu que riqueza nenhuma pode preencher a falta de amor e carinho. Nestes casos, até uma música, cantada por uma voz atrás de um muro, pode acalmar e aquecer. Mas Deus fez muito mais para os pobres, veio no meio deles. Viveu e morreu pobre, preso, condenado e morto. Para não deixar sozinhos os que veio libertar. Milagres pequenos e grandes do amor.

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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