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✒ Artigo

O belo vaso quebrado

Um casal de namorados estava passeando. A moça, olhando a vitrine de uma loja, ficou encantada com um lindo vaso chinês. Seu namorado foi indagar o preço. Era caro demais para ele. Andando pela loja, porém, viu um vaso igual, mas quebrado. Teve uma ideia. Uns dias depois, comprou, quase de graça, o belo vaso quebrado e pediu ao dono que o embrulhasse como se fosse um presente. O seu plano era chegar na casa da namorada e simular um tombo. Assim, poderia dizer que o vaso tinha se quebrado naquele momento. Deu tudo certo, e a namorada acreditou nele até desembrulhar o vaso. Então constatou a mentira. O dono da loja havia embrulhado cada pedaço do vaso quebrado separadamente! A moça ficou muito decepcionada com o namorado que queria enganá-la.  

Neste 22º Domingo do Tempo Comum, voltamos a ler o evangelho de Marcos. Jesus é questionado pelos mestres da Lei sobre o fato de alguns dos discípulos dele não lavarem as mãos antes das refeições. Era um simples costume de higiene, mas tinha-se transformado numa regra rigorosa. Com base nela, as pessoas eram julgadas “observantes” ou não da “lei” e, portanto, nada menos, se eram obedientes ou não a Deus. Ao voltar do mercado, onde circulava todo tipo de gente, animais e mercadorias era necessário tomar banho, porque o contato com pessoas ou coisas “impuras” podia ter contaminado os bons judeus. Uma questão de simples e prudente “limpeza” tinha se transformado numa questão de “pureza” religiosa. Jesus chama de “hipocrisia” essa excessiva preocupação dos mestres da Lei, porque eles ficavam olhando a limpeza exterior e se descuidavam do que era mais importante: a pureza do coração. O que interessa mesmo a Jesus é o que se passa no “interior” das pessoas. O que fazemos pode parecer limpo e até chamar atenção exteriormente. Podemos enganar os homens, mas não conseguimos mentir para Deus, porque ele “vê o que está em segredo” (Mt 6,4). Com efeito, a grande verdade é esta: as boas ou as más intenções do nosso agir vêm, antes de outras motivações, do profundo do nosso coração (Mc 7,21-23).

Nestes tempos de pandemia, estamos vivendo a experiência de ter que passar álcool e lavar as mãos inúmeras vezes, sempre que suspeitamos o perigo do vírus. Não é que antes fôssemos tão “sujos” assim e que nunca lavássemos as mãos, mas agora tudo isso virou obrigação, preocupação e até frenesi. Com tanta “água e sabão” ficamos mais limpos? Com certeza “por fora”, mas, “por dentro”, continuamos os mesmos.

Talvez as palavras de Jesus nos ajudem a encontrar o melhor “detergente” para limpar o nosso coração. O contrário da “hipocrisia” é, sem dúvida, a sinceridade.

 Quando damos lugar a segundas intenções, quando praticamos certa duplicidade no nosso agir, quando falamos de um jeito e praticamos de outro, é sinal de que algo está errado conosco. Afinal, quantas pessoas somos? Por que aquela que aparece por fora é diferente daquela que somos por dentro? Não falo de doenças psicológicas ou algo semelhante. Falo mesmo do nosso ser cristãos. Tem uma bem-aventurança de Jesus sobre isso. É aquela dos “puros no coração, pois eles verão a Deus” (Mt 6, 8). Esses “puros” não são os ingênuos que não enxergam as coisas erradas. São aqueles que encontraram o “colírio” para ungir os olhos (Ap 3,18) e ver as possibilidades do bem e do amor apesar das dificuldades e das incertezas da vida. São aqueles que estão vendo Jesus presente nos pobres, nos pequenos, nos sofredores.  Eles veem muito claramente as injustiças. Não fingem não as ver, não as escondem, não aproveitam delas, não as transformam em destino ou, pior, em “vontade de Deus”. 

Deveríamos zelar pela nossa sinceridade, sobretudo para não enganar a nós mesmos. Antes de apontar as “sujeiras” dos outros, seria bom “purificar” o nosso coração e o nosso agir. O nosso amigo do vaso chinês não conseguiu enganar a namorada. E nós? Será que vamos poder mentir para Deus e para a nossa consciência? Talvez, mas, vale a pena?                      

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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