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O POÇO DO MATO DO BAIRRO LAGUINHO

O POÇO DO MATO DO BAIRRO LAGUINHO

Na época do Território Federal do Amapá, havia um local onde as mulheres lavavam roupas que era conhecido como “Poço da Boa Hora”, numa área chamada pelos antigos de Campos do Laguinho. 

O primeiro governador do então Território do Amapá, o capitão Janary Nunes, transferiu (contra a vontade) os moradores da antiga comunidade negra Vila Santa Engrácia para os Campos do Laguinho, com objetivo de urbanizar a cidade, na década de 1940.

Esse local é o atual bairro do Laguinho, onde estão as raízes negras do Amapá.

Temporariamente aquelas paragens ganhou a denominação de Julião Ramos em homenagem ao mestre marabaixeiro Julião Thomaz Ramos, líder da comunidade negra que habitava no centro histórico de Macapá. Nascido em 1890, era casado com Januária Simplício Ramos da comunidade do Curiáu e teve seis filhos: Felícia Amália Ramos, Alípio de Assunção Ramos, Apolinário Libório Ramos, Benedita Guilhermina Ramos (a Tia Biló) e Joaquim Miguel Ramos. Tia Biló, matriarca da Família Ramos, hoje com 96 anos, é a única filha viva do mestre Julião.

Após um plebiscito em 1986 lá no banco da amizade, o bairro voltou a se chamar Laguinho, que é o mais negro dos bairros de Macapá, superando como referência até mesmo o Quilombo do Curiaú! 

O bairro festeiro destaca-se como principal baluarte da dança folclórica de origem africana típica da cidade - O Marabaixo - além de abrigar o Centro de Cultura Negra (UNA) e duas escolas de samba, Os Piratas Estilizados e Os Boêmios do Laguinho.

Quando me mudei para Macapá, abracei de alma e sangue Os Boêmios por influência de meu grande amigo, o dr. Leonai Garcia, pneumologista dos mais renomados, que já se foi de forma precoce, uma perda irremediável para a medicina, para os seus amigos e para o samba.

Quando morei no Rio de Janeiro, eu desfilava na única escola de samba da zona sul, a São Clemente do bairro Botafogo porque morava ali perto, em Copacabana. Mas a minha escola do coração era a Vila Izabel, frequentador que era dos botecos da Boulevard 28 de Setembro, da Vila. Lá aprendi que é verdade o ditado popular “quem não gosta de samba bom sujeito não é, ou é mal da cabeça ou doente dos pés”! 

Segui a tradição em Macapá e entrei em duas Universidades: a Universidade Federal por concurso público e a Universidade de Samba Boêmios do Laguinho por adoração, minha aguerrida escola onde tenho inúmeros amigos de todos os matizes.

Foi ali que um certo coração corintiano deixou de bater - só apanhava - pelo feitiço do alvo sorriso da passista de cor bombom mais linda do Laguinho.

E bem no coração desse maravilhoso bairro, na av. Manoel da Nóbrega, existe um dos três poços tubulares escavados na área do Serviço de Água e Esgoto, antecessor da CAESA. 

Lá havia um pequeno lago os antigos chamavam de POÇO DO MATO. Era uma fonte de água limpa criada pela natureza, que os moradores usavam para abastecer inclusive o centro. Consta que em 1952 foi contratado o senhor Antonio Costa, um português que fazia mosaicos, para fazer o primeiro sistema de abastecimento de água de Macapá usando a água do Poço do Mato. 

Esse poço ainda está lá bloqueando o meio daquela avenida, como registro histórico dos primórdios do saneamento básico no Amapá. Convenhamos, não mudou muito, né? kkk. 

Aquele local é uma APP (área de preservação permanente), mas devido à ineficiente política habitacional do Amapá, aquela área alagada foi antropizada e o povo edificou suas casas, aterrando praticamente tudo. Um crime ambiental grave, um cancro praticamente no centro de Macapá.

Minha sugestão é a retirada daqueles moradores mediante a justa indenização e a transformação daquele local no PARQUE MUNICIPAL POÇO DO MATO, um espaço cultural e de lazer e turismo, gerando emprego e renda, além da preservação ambiental que é o dever de todos. Nos moldes do passeio público de Curitiba.

Que tal o poço da moedinha da sorte, como a fonte dos desejos Fontana di Trevi, na Itália? Lá houve ano que foram recolhidos 1,5 milhões de euros em moedas que foram usados em projetos de beneficência. Turismo tem que se construir...

Mesmo porque esse lendário Poço do Mato em 1993 foi declarado monumento de interesse cultural do Município de Macapá, através do Projeto de Lei nº 037/93, da Câmara de Vereadores.

Historicamente, o Poço do Mato foi usado desde 1864 para fornecer água aos moradores do antigo bairro do Laguinho e hoje pulula na nossa imaginação diante dos inúmeros fatos folclóricos relacionados aos dois poços. 

Dentre eles, diz a lenda que pelas bandas do “Poço da Boa Hora” morava um senhor descendente de escravos e de tardezinha ninguém ousava a passar pelo local, pois esse senhor fazia malvadezas e o local tinha fama de mal assombrado. O poeta Fernando Canto, na sua obra “Telas e Quintais”, refere-se a esse morador como “Pretinho”. 

O povo confunde o Poço da Boa Hora com o Poço do Mato, pois essa história é uma tradição que passou de geração para geração, dos avós para os pais e netos. Entretanto, são dois locais distintos, porque o Poço da Boa Hora fica ali pelo lado direito da av. Eliezer Levy, por trás do Colégio Augusto dos Anjos, enquanto que o Poço do Mato fica à direita da av. General Rondon, na baixada da av. Padre Manoel da Nóbrega.

Nos primórdios, o povo diferenciava os locais entre Poço do Mato e Lago. Depois, passaram a chamar a região toda de Poço do Mato indistintamente.

No lugar do Poço do Mato foi construído um memorial, com caramanchão, banco e iluminação artificial e há uma associação que cuida do espaço usado para festas e encontros de amigos.

Entretanto, o poço foi fechado e não fornece mais água. 

E pior: tem gente que quer entupir o resto, varrendo a história do Amapá e do bairro para debaixo das lâminas de tratores superfaturados! Rss. Aí você é quem decide, afinal o voto é seu e ninguém lhe tasca!

Mas durante o apagão de 2020, a população Amapaense penou quase 30 dias por falta de energia. Desativaram a Usina Termelétrica de Santana (159 mw) porque o linhão de Tucuruí seria a panaceia para todos os males! Um erro estratégico histórico porque ficamos sem back up!

Mas o cidadão sofreu principalmente por falta de água. Teria sido em boa hora o poço boa hora e do mato ativados, não? Rss.

A sabedoria popular até no nome acerta! 

Dr. Adilson Garcia

Dr. Adilson Garcia

Fórum Íntimo – professor doutor em Direito pela PUC- -SP, advogado e promotor de justiça aposentado.

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