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A novidade da Páscoa     

É bastante fácil perceber que todos os evangelistas tiveram dificuldade para apresentar o evento da Ressurreição de Jesus. O acontecimento era tão novo, inesperado e surpreendente que, ao longo dos evangelhos, repete-se, algumas vezes, que os discípulos não entendiam bem quando Jesus falava de Ressurreição (por exemplo: Mc 9,9-10). De fato, eles tiveram que inventar palavras novas ou, seria melhor dizer, tiveram que usar palavras velhas para expressar coisas totalmente novas. Não devemos duvidar de tudo isso, também se nunca teremos provas irrefutáveis, no sentido comum da palavra. Temos, porém, o auxílio da fé que nos permite enxergar além do imediato e visível ou do material e experimentável. O assunto “Páscoa” é objeto da fé cristã, nunca será fruto de demonstrações lógicas, argumenta&cc edil;ões racionais ou algo semelhante. A Ressurreição do Senhor vai muito além do nosso mundo sensível e puramente histórico.

A novidade da Páscoa começa muito antes da radiosa manhã daquele primeiro dia da semana. Começa quando Deus, no seu projeto de amor para conosco, decidiu tornar-se, no homem Jesus, um de nós, assumindo em tudo a nossa condição humana, “menos o pecado” (Oração Eucarística IV). A novidade continuou ao longo de toda a vida terrena de Jesus. Quantas vezes lemos nos evangelhos que o povo dizia que nunca, ninguém, tinha falado como aquele homem. O evangelista João usa a palavra “sinais” lá onde nós pensamos logo em milagres. Por definição, um “sinal” aponta algo que vai além dele.

 O jeito de Jesus agir, falar, perdoar, encontrar as pessoas, era um “sinal” que algo muito novo estava acontecendo. Contudo o sinal maior de todos, que não podemos separar da Ressurreição, é a morte de Jesus na cruz. A própria Ressurreição seria incompreensível sem a Paixão e a Morte de Jesus no Calvário. Nunca nos deve deixar de surpreender um Deus que se fez homem e aceitou livremente de passar pela morte, destino inevitável de cada criatura vivente, daquela forma tão injusta, trágica e vergonhosa, ao ponto de ser considerado um perigoso inimigo. A cruz era, e foi, o máximo da humilhação e do despojamento. Mas a “Cruz” se transforma em “Luz” se admitimos que a verdadeira vitória não está no poder e no sucesso, no aniquilamento dos adversários, mas na força de amar até os inimigos, de pe rdoar os próprios assassinos, de morrer para abrir um caminho de vida nova. A surpresa das mulheres e dos apóstolos ao verem o túmulo vazio foi grande demais, porque a maior derrota se transformou em vitória, o desprezo em glória, o silêncio da sexta-feira no “aleluia” do domingo. Para nós cristãos, não tem outra maneira para testemunhar a semente da Vida Nova colocada por Jesus em nossas vidas. Somente o caminho da humildade que não disputa com os soberbos, da generosidade que confunde os gananciosos, do amor que não pede devolução e reconhecimento porque é puro, desinteressado e total, pode gerar uma nova humanidade liberta das garras do mal.

Nestes últimos tempos tão tristes e dramáticos para o Brasil e a humanidade inteira, todo dia ouvimos falar de “novo” normal. Dizem isso porque ainda teremos que conviver muito tempo com a ameaça real do vírus. No entanto muitos continuam pensando que tudo voltará como era antes. Para nós cristãos “batizados”, “mortos e renascidos em Cristo”, o verdadeiro novo é aquele que Jesus ensinou, viveu e que o levou à cruz. Somente uma transformação mais radical em nossas vidas, muitas vezes acomodadas, insensíveis e superficiais, pode gerar algo realmente novo: um mundo de paz e de fraternidade, de diálogo e tolerância, de partilha e solidariedade. Se soubermos “desperdiçar”, por amor, um pouco – ou bastante – do nosso tempo, dos nossos bens, dos nossos saberes – também os científicos – come&cce dil;ará para a humanidade um novo e radiante alvorecer. Ao túmulo vazio de Jesus, absoluta novidade, deve corresponder o nosso coração esvaziado de ódio, rancores, interesses escusos e egoístas. Com esses sentimentos de fé e de esperança, desejo a todos e a todas uma Feliz Páscoa.    

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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