A relação homem/máquina me fez sentir na pele (ou melhor dizendo, na letra), os seus desafios.
Com o tempo, a minha caligrafia foi se modificando (pra pior), ao ponto de não conseguir decifrar o que eu mesma havia escrito. Só depois que fui perceber quem era o vilão: o teclado do computador ou celular.
Depois que esses dois recursos passaram a ser uma necessidade humana (pra maioria, pelo menos), certos hábitos naturais foram deixando de ser naturais... Até aplicativo de nota pra celular, inventaram.
Pelo menos comigo foi assim, o que é uma pena, dada a minha predileção pela escrita.
É quase como se eu fosse perdendo a minha coordenação motora (num sentido bem figurado, viu?! Bate na madeira!!!)
É que a minha escrita no bloquinho de notas teve que se aliar à agilidade para captar o que estava acontecendo, principalmente, durante as coberturas jornalísticas (pensa num exercício desafiador!) e, por vezes, as palavras saiam como linhas horizontais, ao invés de letras.
E até compreender o que eu mesma havia escrito, a história tinha que estar, de um jeito ou de outro, na cabeça (ou no gravador de voz/celular) pra “salvar” o que se transformaria em matéria/reportagem.
Daí eu lembrei da estratégia do escritor Austin Kleon. Para não robotizar o seu processo criativo, ele se utiliza de duas estações de trabalho, uma digital e uma analógica.
Na primeira, só tem materiais eletrônicos que são para o processo final dos seus trabalhos. Na segunda, só há ferramentas que estimulam os seus sentidos, ou seja, que ele pode tocar, sentir o cheiro, ouvir o som do material que está utilizando e etc.
Ao utilizar a sua estação analógica, o escritor conta que, só assim, consegue criar os seus escritos ou desenhos. E passa a ser uma brincadeira de tão prazeroso que se torna o processo.
Outra coisa muito interessante desse autor é que ele diz que é preciso encontrar uma maneira de fazer com que nosso corpo seja parte do trabalho:
"Se simplesmente começarmos a nos movimentar, se arranharmos um violão, ou embaralharmos anotações e recados numa mesa de reunião, ou começarmos a modelar barro, a ação dispara nosso cérebro e o leva a pensar."
Tudo isso só me fez reforçar a importância de continuar com o meu bloquinho e caneta, como parte do meu trabalho, antes de finalizá-lo na tela estática do computador.
Se tem que sentir pra fazer sentido, então vamos lá!