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✒ Artigo

Nunca perdi a coragem 

Numa campanha para ajudar os doentes de câncer, uma contribuição substancial foi dada por uma viúva cega. A mulher não achava nada de extraordinário nisso. Quando foi entrevistada por uma jornalista ela disse: “Me ensinaram a confiar em mim mesma. Posso ainda distinguir a luz e a sombra, não sou totalmente cega. Posso ainda fazer muita coisa e, graças a Deus, nunca perdi a coragem. A minha cegueira chegou gradualmente e me considero com grande sorte por ter tido muitos anos de vista boa”.

Ao contrário dessa viúva generosa, o cego da página do evangelho de João, deste Quarto Domingo de Quaresma, nunca tinha enxergado na vida dele, era “cego de nascença”. Interessante, porque o cego, ao final, encontrará a luz plena e os que se achavam com a vista boa – os fariseus – serão declarados cegos. É evidente que o evangelista joga com a imagem, muito bíblica por sinal, da luz. É aquela do sol que nos permite trabalhar de dia e que o cego nunca tinha conhecido, mas também é a luz da fé. Assim aquele que agora enxerga, quando encontra novamente Jesus, pode dizer: “Eu creio, Senhor!”. Porque o “Filho do Homem” é a verdadeira “luz do mundo” (Jo 9,5) e aqueles que não o acolhem ficam, agora, na escuridão. Como lembrei domingo passado, estamos na segunda etapa do caminho para os catecúmenos que eram batizados na noite de Páscoa. Por que essas etapas? Porque à fé em Cristo, chegamos gradativamente, numa busca fadigosa e luminosa ao mesmo tempo. Por isso, como para a samaritana, o homem que antes era cego discute com os fariseus sobre Jesus. Às perguntas deles responde antes que aquele que lhe abriu os olhos é “um profeta”, depois um “mestre”, do qual, talvez, vale a pena ser discípulos. Enfim chama de “Senhor” o “Filho do Homem”.

Aquele “cego” ganhou a vista, ganhou a luz da fé e, ainda pode seguir o Senhor e fazer parte de uma nova comunidade, já que havia sido expulso daquela dos fariseus. É facilmente compreensível o itinerário da iniciação à vida cristã.

Nesta altura da Quaresma, mas sobretudo da nossa vida, devemos nos perguntar o que aconteceu com a luz da fé que nos foi doada no dia do nosso Batismo, se ainda enxergamos Jesus como luz para o nosso caminho ou se já seguimos outras “luzes” que consideramos mais luminosas. Nos nossos dias, os cientistas da humanidade salientam um fato curioso. Moramos em cidades iluminadas. Em alguns lugares quase não se percebe mais se é dia ou se já chegou a noite. Muitos de nós, talvez até as crianças, esqueceram-se que existem as estrelas, ou nunca param para contemplá-las. Porque para ver o brilho das estrelas precisa da escuridão da noite. Não é para ter medo, mas para perceber, nem que seja por alguns instantes, que não existimos somente nós e que o universo é muito maior de todas as nossas manias de grandeza e de poder. Pior ainda se a maior luz que ilumina o nosso rosto é aquela de uma tela de computador. Nos exaltamos tanto com as “luzes” por nós mesmos produzidas que ficamos cegos, porque enxergamos somente isso. Sem dúvida, a humanidade pode ser orgulhosa de si mesma por muitas coisas, mas parece que não enxerga mais o desespero dos pobres, a fome dos pequenos, as vítimas das guerras que ela mesma produz. Quando a luz da nossa vida somos nós mesmos, esta luz pode nos tornar cegos, pela simples razão de vermos somente os nossos problemas, as nossas ambições, o nosso bem-estar. Os outros, e as estrelas vão junto, param de existir. Talvez, ainda crianças e jovens iniciamos a nossa vida de cristãos cheios de boa vontade, mas, gradativamente, a luz da fé foi se apagando. Começaram a brilhar outras luzes, outros interesses. Acabamos por seguir outros mestres, por escutar outras palavras. Nunca é tarde, porém, para resgatar o que sobrou da luz da fé em nossa vida. Não será um sinal de fraqueza, ao contrário, será um sinal da coragem - que talvez perdemos - de admitirmos a nossa pobreza humana. Sabemos muito, mas não sabemos tudo e não será nada vergonhoso pedir ao Senhor Jesus, luz do mundo, que abra mais os nossos olhos. Veremos muitas coisas esquecidas: as estrelas, talvez, mas, muito mais, os outros e Deus. 

Dom Pedro José Conti

Dom Pedro José Conti

Bispo de Macapá

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