Segurança

Comércio de drogas na darknet movimenta quase US$ 2,6 bilhões em 2025, aponta Chainalysis


Relatório mostra como plataformas ilícitas se reorganizam após operações policiais e como dados de blockchain podem antecipar crises de saúde pública.


Os mercados de drogas que operam na darknet seguem como um dos segmentos mais persistentes da economia ilícita baseada em criptomoedas. De acordo com o capítulo Drugs + Darknet Markets do 2026 Crypto Crime Report, da Chainalysis, os fluxos financeiros associados a esses mercados somaram quase US$ 2,6 bilhões em 2025, demonstrando que, mesmo após operações de repressão e o encerramento de plataformas, a atividade criminosa continua a se reorganizar.

O relatório mostra que o fechamento de mercados individuais raramente elimina o problema. Em vez disso, vendedores e compradores migram rapidamente para outras plataformas, transformando o que antes eram operações isoladas em uma rede global interconectada de fornecimento, com circulação constante de recursos entre diferentes mercados.


Dados on-chain indicam retração nos fluxos ligados ao fentanil

Um dos achados mais relevantes do capítulo está relacionado ao fentanil, substância associada a uma grave crise de saúde pública em diversos países. A análise aponta que os fluxos de criptomoedas direcionados a intermediários envolvidos na venda de precursores químicos para a produção da droga — muitos deles com atuação concentrada na China — caíram de forma significativa a partir de meados de 2023.

Essa retração coincidiu com uma série de eventos, incluindo sanções e acusações formais dos Estados Unidos contra redes de tráfico, a retomada da cooperação bilateral entre EUA e China em temas relacionados a narcóticos e a publicação, em 2025, de um documento oficial chinês relatando a remoção de milhares de anúncios e plataformas online ligadas a essas atividades.

Segundo o relatório, a redução dos fluxos observados na blockchain ocorreu antes da queda registrada nas mortes por overdose nos Estados Unidos e no Canadá, sugerindo que dados on-chain podem funcionar como indicadores antecipados de choques na cadeia de suprimento de drogas ilícitas, com potencial de antecedência de vários meses em relação às estatísticas tradicionais de saúde pública.


Mercados deixam de operar isoladamente e passam a atuar em rede

O estudo mostra que os mercados da darknet estão cada vez mais conectados entre si. Em 2025, um número reduzido de plataformas concentrou uma parcela desproporcional das transferências entre mercados, funcionando como nós centrais dessa rede.

Após o encerramento do Abacus Market, em julho de 2025 — até então o maior mercado voltado ao público ocidental — o TorZon passou a assumir papel central na redistribuição de compradores e vendedores. Ao mesmo tempo, mercados com foco no público russo, como KrakenOMG!OMG!Mega e Blacksprut, permaneceram altamente ativos, especialmente na distribuição de drogas sintéticas em larga escala.

O relatório também destaca operações policiais recentes, como a Operação Fabryka, que desmantelou dezenas de laboratórios industriais de drogas sintéticas na Europa, evidenciando a crescente profissionalização e verticalização dessas cadeias ilícitas.


Interrupções provocam migração rápida de recursos

Eventos de ruptura, como encerramentos forçados ou ataques hackers, costumam gerar movimentos imediatos de capital entre mercados. O relatório cita, por exemplo, um ataque sofrido pela plataforma Blacksprut, em 2022, que foi seguido por um aumento significativo nas transferências entre diferentes mercados, indicando reorganização de estoques e realocação estratégica de recursos.

Apesar dessas mudanças, as exchanges centralizadas continuam sendo uma das principais portas de entrada de recursos para os mercados da darknet, refletindo o comportamento de usuários que adquirem criptomoedas em plataformas reguladas antes de enviá-las a ambientes ilícitos.


Valor das transações ajuda a diferenciar consumo e redistribuição

A análise também avaliou a relação entre pagamentos feitos a mercados da darknet e indicadores de saúde pública no Canadá. Os dados mostram dois padrões distintos:

  • Pagamentos inferiores a US$ 500 não apresentaram correlação relevante com internações ou atendimentos de emergência relacionados ao uso de estimulantes.
  • Pagamentos acima de US$ 500, por outro lado, mostraram forte correlação com piores desfechos de saúde.

Segundo o relatório, transações de maior valor tendem a indicar compras destinadas à redistribuição ou a padrões de consumo mais intensivos, ampliando o risco de danos à saúde coletiva. Como esses pagamentos ocorrem antes da circulação física das substâncias, a análise on-chain pode oferecer alertas precoces para autoridades de saúde e segurança pública.


Queda nas “lojas de fraude” e avanço de redes atacadistas

O capítulo também analisa a atividade das chamadas lojas de fraude, especializadas na venda de dados de pagamento roubados e documentos falsificados. Em 2025, os volumes financeiros associados a essas plataformas caíram de cerca de US$ 205 milhões para US$ 87,5 milhões, resultado atribuído principalmente a ações de repressão contra processadores de pagamento e serviços de lavagem de dinheiro.

Em contrapartida, redes de fraude que operam predominantemente em língua chinesa, muitas delas organizadas em canais no Telegram, ganharam espaço com um modelo mais voltado ao atacado, processando transações médias significativamente maiores e indicando foco em operações de alto volume entre intermediários.


Visibilidade on-chain vai além do valor financeiro

Para a Chainalysis, o principal aprendizado do capítulo não está apenas nos valores movimentados, mas na capacidade da análise de blockchain de oferecer visibilidade antecipada sobre a adaptação do crime organizado a pressões regulatórias e operacionais.

O monitoramento dos fluxos financeiros permite observar, em tempo quase real, mudanças na oferta de substâncias ilícitas, migração entre mercados e padrões de comportamento que podem anteceder crises de saúde pública — reforçando o papel da inteligência on-chain como ferramenta estratégica para autoridades e instituições ao redor do mundo.


Para acessar o capítulo “Drugs + Darknet Markets” do 2026 Crypto Crime Report na íntegra, clique aqui.

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