Licitações entram na era digital, mas enfrentam desafios com IA e falhas operacionais
- Redação
- 08/04/2026
- Tecnologia
Avanço tecnológico amplia transparência e reduz custos, porém levanta novos riscos jurídicos e mantém erros que afastam empresas de contratos públicos
A digitalização das licitações públicas no Brasil trouxe mais transparência, reduziu custos operacionais e ampliou a competitividade em âmbito nacional, mas ainda enfrenta desafios relevantes, como fraudes digitais, falhas em editais e dúvidas sobre o uso de inteligência artificial. O cenário atual combina avanços significativos com riscos emergentes, exigindo atenção redobrada de empresas e gestores públicos para evitar prejuízos e judicializações.
Os pregões eletrônicos, impulsionados pela legislação mais recente, consolidaram-se como ferramenta central nas contratações públicas. Com plataformas digitais que permitem lances em tempo real e registro público das propostas, houve redução de custos estimada entre 20% e 30%, além de maior acesso de empresas de diferentes regiões. Ainda assim, práticas como lances simulados, participação de empresas fictícias e cláusulas restritivas em editais continuam presentes, apenas adaptadas ao ambiente virtual.
“A tecnologia trouxe ganhos inegáveis de transparência e eficiência, mas não eliminou vícios históricos das licitações. O que vemos é uma migração dessas irregularidades para o meio digital, muitas vezes com maior sofisticação”, avalia Ricardo Dias, sócio da área de Direito Administrativo e Licitações do Comparato, Nunes, Federici & Pimentel Advogados.
De acordo com o especialista, outro ponto de destaque é o uso crescente de inteligência artificial nos processos licitatórios. “Ferramentas já são capazes de analisar editais, identificar riscos e mapear oportunidades de forma automatizada. A expectativa é de expansão desse uso nos próximos anos, com impacto direto na forma como empresas e órgãos públicos conduzem suas estratégias”, reforça.
No entanto, o avanço da IA levanta preocupações jurídicas importantes. Entre elas estão o risco de viés algorítmico, a falta de transparência nas decisões automatizadas e a dificuldade de atribuir responsabilidade em caso de erros. A necessidade de conformidade com regras de proteção de dados e de mecanismos de auditoria também entra no radar.
“O uso de inteligência artificial exige um nível elevado de governança e prestação de contas. Sem transparência e critérios claros, há risco de nulidade dos processos e questionamentos jurídicos relevantes”, explica o advogado.
Segundo Ricardo, além das questões estruturais, erros operacionais continuam sendo um dos principais fatores de desclassificação de empresas. Estima-se que cerca de 67% das desclassificações em pregões eletrônicos ocorram por falhas evitáveis, como documentação incompleta, cadastros desatualizados ou perda de prazos.
Entre os equívocos mais comuns estão a ausência de atualização em sistemas cadastrais obrigatórios, envio de documentos vencidos, falhas técnicas durante a disputa e falta de atenção aos prazos para impugnações e recursos. Em muitos casos, esses erros impedem empresas competitivas de avançar nas licitações.
“Muitas empresas ainda perdem oportunidades por falhas básicas de organização e estratégia. A preparação adequada e a leitura atenta dos editais são diferenciais decisivos no ambiente digital”, destaca o especialista.
No campo jurídico, o impacto da tecnologia tem sido ambivalente. Se por um lado houve redução inicial de disputas judiciais devido à padronização e maior agilidade dos processos, por outro surgiram novos tipos de questionamentos. Problemas técnicos nas plataformas, decisões automatizadas e suspeitas de fraudes cibernéticas passaram a integrar o centro das discussões.
“A transformação digital é irreversível, mas seu sucesso depende da combinação entre inovação, regulação eficiente e capacitação dos envolvidos. Sem isso, os mesmos problemas tendem a se repetir em novos formatos”, conclui.
Fonte:
Ricardo Dias – Graduado pela Faculdade de direito de São Bernardo do Campo (1992), Pós-Graduado em Direito Empresarial pela Universidade Mackenzie (1996), em Processo Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1999) e em Direito Administrativo Econômico pela Fundação Getúlio Vargas (2003). Sólida atuação em direito público, tendo atuado como gerente nacional de Licitações e Contratos Administrativos em diferentes empresas nacionais e multinacionais.
